Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão


s Irmãs Missionárias Combonianas celebram, este ano, 50 anos de presença no Brasil. “Recordando os grandes feitos do Senhor e relembrando os prodígios do passado” (Sl 77, 12), elas agradecem a Deus pela intuição profética de São Daniel Comboni, que fundou a Congregação em 1872, na Itália, para o serviço da missão “ad gentes”, isto é, para todos os povos além-fronteiras. Para animar missionariamente a Igreja no Brasil e responder ao convite do papa Pio XII, as Combonianas chegam a Nova Venécia, Espírito Santo, vindas da Itália, em dezembro de 1955. No início, prestam seu serviço no campo da educação, saúde e pastoral.

À luz do Concílio Vaticano II, as irmãs avaliam sua caminhada e renovam sua presença, priorizando as Comunidades Eclesiais de Base e, dentro delas, a formação das lideranças, a educação popular e a saúde alternativa. São os anos de entusiasmo das lutas populares, da inserção nas grandes periferias e do compromisso com os índios Suruí, Tupiniquim e Guarani. Hoje, as Combonianas estão empenhadas em programas sociais para crianças, adolescentes e jovens em situação de risco e continuam na pastoral geral e indigenista, nos estados do Espírito Santo, São Paulo, Rondônia, Paraná, Ceará e Bahia.

A animação missionária é também uma das prioridades das Combonianas, pela consciência que têm do mandato de Jesus: “Ide pelo mundo todo...”. Como fruto desse empenho, além da alegria de ver leigos e leigas cada vez mais comprometidos com a causa missionária, também se alegram pelas 38 irmãs brasileiras que acolheram o chamado à vocação missionária comboniana e atuam principalmente na África, onde partilham a fé recebida nesta Igreja do Brasil. Nesta caminhada de 50 anos, houve avanços e retrocessos.

Mas não se desanimaram, pois elas contam com duas torcidas: a de Jesus que lhes diz: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo”, e a de Comboni, em seu leito de morte: “Eu morro, mas minha obra não morrerá”. Esta frase nada tem a ver com fanatismo ou triunfalismo, mas é profecia e legado para todos aqueles e aquelas que querem dar continuidade à árdua e, ao mesmo tempo, apaixonante missão evangelizadora. Páginas da sua história testificam esta entrega incondicional. Jubileu é tempo especial para dar graças a Deus pelos benefícios recebidos nesta Igreja do Brasil, junto à qual a família comboniana caminhou, lutou e fez história, nestes 50 anos de profundas mudanças.

A história da Igreja missionária continua a escrever novas páginas de uma missão globalizada, sem fronteiras, ecumênica, onde os valores do Reino unem as pessoas na luta em favor dos excluídos. Mas a família comboniana também escreveu com sangue páginas heróicas da história de alguns países de missão. São histórias de profecia e de martírio que, desde as origens da Congregação, testemunham a audácia e a radicalidade de seus membros, sacerdotes e religiosas; gente que nunca temeu a via crucis e o calvário. O exemplo, a seguir, atesta a missionariedade dessa numerosa família.

Insurreição mahdista


Missionária comboniana na celebração, este ano,
dos 50 anos presente no Brasil

Daniel Comboni morre, aos 50 anos de idade, em 1881, em Cartum, Sudão. No ano seguinte, explode a insurreição mahdista, movimento de reforma islâmica, liderada por Muhammad Ahmad Abd Allah, conhecido como Mahdi (“guiado por Allah”). A insurreição, que chega até o Kordofan, no centro do Sudão, torna-se revolução armada e guerra declarada ao mundo cristão. As missionárias e os missionários não têm tempo para fugir. No dia 18 de setembro de 1882, a comunidade comboniana de Delen é capturada e obrigada a se transferir para o acampamento dos árabes muçulmanos que cercam El Obeid.

A comunidade de Delen, com pouco mais de uma dezena de pessoas, entre irmãs e padres, é prisioneira dos mahdistas. Os cativos suportam uma viagem desastrosa, com febres e diarréias, sem água e sem alimentos, até chegar ao acampamento. Lá, a multidão enfurecida aumenta, mais e mais, os comprime e os pisoteia. Ensandecidos e armados de lanças e porretes, os seguidores do Mahdi se agitam, gritam e ameaçam matar os cativos. Gabriel, irmão leigo, não mais agüenta e só consegue prosseguir apoiado nos outros.

A maioria dos amotinados pede a morte dos prisioneiros, mas Muhammad, o Mahdi, não; ele quer que os cristãos se convertam ao islamismo e, obcecado pela idéia, ordena que se continuem os tormentos até à exaustão, ou à conversão. Ele assim age, no mesmo tempo em que recusa uma considerável soma de dinheiro, oferecida pela libertação dos missionários e missionárias. Estes são confinados em cabanas imundas, repletas de insetos asquerosos a atormentá-los dia e noite. E continuam a receber maus tratos, insultos e zombarias. Não têm água para lavar-se, nem roupa para se trocar.


Missionária empenha em programas sociais

Pe. Ohrwalder escreve: “Deitados no chão da cabana escura, sem ajuda e conforto algum, tornamo-nos quase imbecilizados, em conseqüência dos últimos acontecimentos.

As doenças avançaram perigosamente, tanto que, após um mês de reclusão, três de nós morreram:

- irmãs Eulália Pesavento, Amália Andreis e Gabriel Marani. O Instituto Comboniano, na Itália, ao receber a notícia da morte de alguma vítima dos mahdistas, refere-se a uma ‘testemunha da fé’ e ‘mártir’”. Um dia, após interrogatórios intermináveis, chega aos prisioneiros a notícia que, se persistirem na sua fé, serão decapitados no dia seguinte. Sacerdotes e freiras preparam-se, então, para a morte iminente. O medo e a angústia, que há tempo os acompanham, desaparecem como por encanto. Agora sonham e desejam o martírio, a verdadeira libertação e o ato supremo do amor. No dia seguinte, de fato, os soldados insistem, pela última vez, para que eles pronunciem a fórmula da abjuração... ou serão decapitados.

Com a coragem que só pode vir de Deus, eles oferecem sua cabeça e, mais uma vez, Mahdi intervém e suspende o tormento, afirmando:

“Deus vos guie à verdade.” Uma frase bonita entre tantas mentiras! Quanta desumanidade nesta história de violência e de sangue! O último grupo, aquele que consegue sobreviver a tamanho martírio, permanece no cativeiro por mais dezesseis intermináveis anos. Aos olhos humanos, parece impossível que alguém possa resistir a tantas torturas, apenas apoiado na sua fé e amor a Jesus Cristo. Do grupo, quem mais sofre é Elisabetta Venturini (Bettina, como era chamada). Um dia, alguns muçulmanos, cansados de vê-la deitada, como moribunda à espera da morte, depois das terríveis torturas, amarram-lhe uma corda e arrastam-na pelo acampamento entre gritos e maldições. Bettina resiste.

Enfurecida, a turba pendura-a pelos cabelos a uma árvore e lá é chicoteada até não dar sinais de vida. Então, os algozes, aparentemente satisfeitos, descem-na da árvore e a deixam em paz. No acampamento, corre a notícia que uma freira morreu. Mas Bettina ainda está viva. Ao ser conduzida ao Mahdi, depois de muitas horas, retoma a consciência. Quando vislumbra, perto dela, outras quatro irmãs, desaba num longo pranto. Seu martírio continua até a libertação. De fato, o dia 2 de setembro de 1898 marca o fim da tristemente célebre insurreição mahdista, com a tomada de Omdurman. Este triste e longo martírio, ao invés de apagar o vigor da fé, foi como o “grão de trigo” que caído no chão, revigorou a jovem Congregação.

Missionários Combonianos
Rua José Rubens n.º 15 – Previdência
São Paulo - SP - 05515-000
Tel.: (11) 3721.8733 – www.combonianos.org.br

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar