Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
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À luz do Concílio Vaticano II, as irmãs avaliam sua caminhada e renovam sua presença, priorizando as Comunidades Eclesiais de Base e, dentro delas, a formação das lideranças, a educação popular e a saúde alternativa. São os anos de entusiasmo das lutas populares, da inserção nas grandes periferias e do compromisso com os índios Suruí, Tupiniquim e Guarani. Hoje, as Combonianas estão empenhadas em programas sociais para crianças, adolescentes e jovens em situação de risco e continuam na pastoral geral e indigenista, nos estados do Espírito Santo, São Paulo, Rondônia, Paraná, Ceará e Bahia. A animação missionária é também uma das prioridades das Combonianas, pela consciência que têm do mandato de Jesus: “Ide pelo mundo todo...”. Como fruto desse empenho, além da alegria de ver leigos e leigas cada vez mais comprometidos com a causa missionária, também se alegram pelas 38 irmãs brasileiras que acolheram o chamado à vocação missionária comboniana e atuam principalmente na África, onde partilham a fé recebida nesta Igreja do Brasil. Nesta caminhada de 50 anos, houve avanços e retrocessos. Mas não se desanimaram, pois elas contam com duas torcidas: a de Jesus que lhes diz: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo”, e a de Comboni, em seu leito de morte: “Eu morro, mas minha obra não morrerá”. Esta frase nada tem a ver com fanatismo ou triunfalismo, mas é profecia e legado para todos aqueles e aquelas que querem dar continuidade à árdua e, ao mesmo tempo, apaixonante missão evangelizadora. Páginas da sua história testificam esta entrega incondicional. Jubileu é tempo especial para dar graças a Deus pelos benefícios recebidos nesta Igreja do Brasil, junto à qual a família comboniana caminhou, lutou e fez história, nestes 50 anos de profundas mudanças. A história da Igreja missionária continua a escrever novas páginas de uma missão globalizada, sem fronteiras, ecumênica, onde os valores do Reino unem as pessoas na luta em favor dos excluídos. Mas a família comboniana também escreveu com sangue páginas heróicas da história de alguns países de missão. São histórias de profecia e de martírio que, desde as origens da Congregação, testemunham a audácia e a radicalidade de seus membros, sacerdotes e religiosas; gente que nunca temeu a via crucis e o calvário. O exemplo, a seguir, atesta a missionariedade dessa numerosa família. Insurreição mahdista
Daniel Comboni morre, aos 50 anos de idade, em 1881, em Cartum, Sudão. No ano seguinte, explode a insurreição mahdista, movimento de reforma islâmica, liderada por Muhammad Ahmad Abd Allah, conhecido como Mahdi (“guiado por Allah”). A insurreição, que chega até o Kordofan, no centro do Sudão, torna-se revolução armada e guerra declarada ao mundo cristão. As missionárias e os missionários não têm tempo para fugir. No dia 18 de setembro de 1882, a comunidade comboniana de Delen é capturada e obrigada a se transferir para o acampamento dos árabes muçulmanos que cercam El Obeid. A comunidade de Delen, com pouco mais de uma dezena de pessoas, entre irmãs e padres, é prisioneira dos mahdistas. Os cativos suportam uma viagem desastrosa, com febres e diarréias, sem água e sem alimentos, até chegar ao acampamento. Lá, a multidão enfurecida aumenta, mais e mais, os comprime e os pisoteia. Ensandecidos e armados de lanças e porretes, os seguidores do Mahdi se agitam, gritam e ameaçam matar os cativos. Gabriel, irmão leigo, não mais agüenta e só consegue prosseguir apoiado nos outros. A maioria dos amotinados pede a morte dos prisioneiros, mas Muhammad, o Mahdi, não; ele quer que os cristãos se convertam ao islamismo e, obcecado pela idéia, ordena que se continuem os tormentos até à exaustão, ou à conversão. Ele assim age, no mesmo tempo em que recusa uma considerável soma de dinheiro, oferecida pela libertação dos missionários e missionárias. Estes são confinados em cabanas imundas, repletas de insetos asquerosos a atormentá-los dia e noite. E continuam a receber maus tratos, insultos e zombarias. Não têm água para lavar-se, nem roupa para se trocar.
Pe. Ohrwalder escreve: “Deitados no chão da cabana escura, sem ajuda e conforto algum, tornamo-nos quase imbecilizados, em conseqüência dos últimos acontecimentos. As doenças avançaram perigosamente, tanto que, após um mês de reclusão, três de nós morreram: - irmãs Eulália Pesavento, Amália Andreis e Gabriel Marani. O Instituto Comboniano, na Itália, ao receber a notícia da morte de alguma vítima dos mahdistas, refere-se a uma ‘testemunha da fé’ e ‘mártir’”. Um dia, após interrogatórios intermináveis, chega aos prisioneiros a notícia que, se persistirem na sua fé, serão decapitados no dia seguinte. Sacerdotes e freiras preparam-se, então, para a morte iminente. O medo e a angústia, que há tempo os acompanham, desaparecem como por encanto. Agora sonham e desejam o martírio, a verdadeira libertação e o ato supremo do amor. No dia seguinte, de fato, os soldados insistem, pela última vez, para que eles pronunciem a fórmula da abjuração... ou serão decapitados. Com a coragem que só pode vir de Deus, eles oferecem sua cabeça e, mais uma vez, Mahdi intervém e suspende o tormento, afirmando: “Deus vos guie à verdade.” Uma frase bonita entre tantas mentiras! Quanta desumanidade nesta história de violência e de sangue! O último grupo, aquele que consegue sobreviver a tamanho martírio, permanece no cativeiro por mais dezesseis intermináveis anos. Aos olhos humanos, parece impossível que alguém possa resistir a tantas torturas, apenas apoiado na sua fé e amor a Jesus Cristo. Do grupo, quem mais sofre é Elisabetta Venturini (Bettina, como era chamada). Um dia, alguns muçulmanos, cansados de vê-la deitada, como moribunda à espera da morte, depois das terríveis torturas, amarram-lhe uma corda e arrastam-na pelo acampamento entre gritos e maldições. Bettina resiste. Enfurecida, a turba pendura-a pelos cabelos a uma árvore e lá é chicoteada até não dar sinais de vida. Então, os algozes, aparentemente satisfeitos, descem-na da árvore e a deixam em paz. No acampamento, corre a notícia que uma freira morreu. Mas Bettina ainda está viva. Ao ser conduzida ao Mahdi, depois de muitas horas, retoma a consciência. Quando vislumbra, perto dela, outras quatro irmãs, desaba num longo pranto. Seu martírio continua até a libertação. De fato, o dia 2 de setembro de 1898 marca o fim da tristemente célebre insurreição mahdista, com a tomada de Omdurman. Este triste e longo martírio, ao invés de apagar o vigor da fé, foi como o “grão de trigo” que caído no chão, revigorou a jovem Congregação. Missionários
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