Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

O missionário é aquele que oferece e recebe dons

Giorgio Paleari

"De graça recebeste, de graça dai."
(Mt 10,8)

O missionário é sempre visto como alguém que oferece um "presente": o dom que recebeu de Deus e que quer oferecer aos outros. Há uma força que empurra o evangelizador a comunicar essa dádiva, é um poder inerente ao mesmo dom que deve ser transmitido e nunca guardado. A felicidade de ter recebido o dom de Deus é tão grande que impulsiona o missionário a querer partilhar essa alegria.
A impetuosidade da comunicação, todavia, torna, muitas vezes, o dom inútil e sem sentido. Antes de tudo, o dom está num invólucro que não é nada atraente: é uma palavra dita a partir da cultura do missionário, que é incompreensível ao receptor. O presente pode ser bom, mas a roupagem não convida a recebê-lo. É um invólucro cinzento, quando seria melhor que fosse todo colorido. É um presente mal amarrado. Às vezes, em vez de ser levado com ternura, é jogado como lixo no mundo dos outros. O dever de entregar o dom não implica que este seja oferecido como algo incompreensível e mal apresentado. Até pode chegar a ser uma ameaça à identidade do outro quando, por exemplo, é imposto e forçado.
Além disso, exatamente por ser um dom, pode ser rejeitado ou não aceito. Ninguém pode aceitar um dom que não é esperado ou que não se apresente como tal.
O oferecimento do dom está inserido num sistema de trocas, em que há uma necessidade de oferecer, aceitar e retribuir. É um sistema que está na raiz e na visão do mundo de muitos povos. É um sistema que define o princípio da relação com os outros. Quando se fala em "sistema", entende-se uma estrutura que está na raiz do processo cultural e da construção da identidade. Junto com a dádiva há toda uma força inerente a ela, quase uma obrigação de ser oferecida, mas também aceita e retribuída. Isto vale também para o missionário. O dom que carrega consigo deve ser trocado por outro dom que é oferecido pelos diferentes povos e culturas. O Espírito de Deus já colocou as sementes que enriquecem a experiência da oferenda do missionário. Ele mesmo é obrigado a receber o dom do outro que é dádiva e força vital para a alteridade.
O missionário não é sempre aquele que é obrigado a oferecer, ele também deve receber o dom e permitir ao outro de retribuir. A mensagem evangélica, neste sistema de trocas, é oferenda que vem, antes de tudo, de Deus, oferecida na gratuidade e que, no entanto, exige a colaboração e a liberdade da aceitação e da retribuição. O Dom maior que nos foi dado é o próprio Filho de Deus, que não é propriedade exclusiva do missionário, mas que já está presente como Palavra eterna, no seio dos povos e culturas.

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