Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Hóspede na casa do outro

Giorgio Paleari

Na revista Missiology (janeiro 1991), Stephen Bevans, SVD, publicou um texto muito interessante sobre a figura do missionário que usava imagens para visualizar a pessoa do mesmo. Foi nesse texto que me inspirei para começar a desenvolver alguns elementos de espiritualidade missionária.

Antes de tudo, o missionário além fronteiras é um hóspede que estabelece sua morada na casa de outro povo e de outra cultura.

o Ser hóspede cria uma situação de dependência em relação a outro povo e outra cultura. É obrigação do hóspede apreciar e aceitar o que é oferecido, qualquer que seja a oferta. Não cabe a ele selecionar e mudar. Vive a gratuidade de ser acolhido, de ser recebido, de ser alimentado e de ser incluído no mundo do outro. Sua casa é casa do outro, não lhe pertence. É casa emprestada na morada do outro. É casa sagrada. Entra como hóspede nas relações familiares e grupais, procurando ocupar o lugar que lhe cabe sem invadir o espaço do outro. O ritmo da vida lhe é imposto pelos parâmetros culturais, abrindo caminho nas relações já estabelecidas. O hóspede não incomoda, não é arrogante e orgulhoso. É hóspede porque recebe, na gratuidade, o dom de ser acolhido.

o O hóspede recebe a hospitalidade e torna-se amigo. Não vai para outro povo e outra cultura para ser venerado. Ele aceita a riqueza da cultura, a beleza da língua, o gosto da cozinha e a amizade de quem o hospeda.

o O hóspede cria sempre um sentido de mal-estar e abala a normalidade das relações do outro. Ainda não é familiar e quase nunca vai ser. Sua história de vida e sua visão de mundo não bate com a história de vida do grupo. Ele precisa pisar devagar sobre um terreno úmido, movediço ou duro. A maneira de colocar o pé e os dedos no chão diferenciam seu jeito de caminhar do outro. O hóspede é sempre uma ameaça, um intruso, alguém que põe em perigo a tranqüilidade e a serenidade da identidade já estabelecida. A dureza da pele, os calos nos pés, o jeito de locomover-se, o movimento de suas mãos é diferente e o outro o vê com apreensão e medo. Através da relação, os medos são espantados, superados e negados. Ou talvez, os mesmos medos são exacerbados, aumentados e engrandecidos. É preciso muito tempo para que os hóspede seja aceito, mas quase nunca chega a ser membro da família.

o Ser hóspede não é fácil, mas é uma necessária condição do missio-nário, quando passa de uma cultura a outra. É sobre essa base que devem ser estabelecidos novos relacionamentos e ocupados os espaços permitidos. É nessa situação de hóspede que o missionário comunica e apreende, ensina e partilha, transmite e recebe, sabendo que o Espírito de Deus antecede sua chegada.

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