Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

"Chegou a hora"

Giorgio Paleari

"É certo que nós próprios precisamos de missionários, mas devemos dar de nossa pobreza" (Puebla, 368)

"Finalmente chegou a hora", diz o documento de Puebla, de a Igreja da América Latina se abrir para além de suas próprias fronteiras, até o ad gentes.

A espiritualidade missionária enraíza-se na universalidade e encontra seu melhor chão na abertura além-fronteiras. Terminou o tempo de reter as forças da evangelização por causa de necessidades internas das comunidades locais. Uma Igreja amadurece e torna-se adulta, quando se abre e não quando espera resolver todos seus problemas internos. A condição para a maturidade de uma comunidade é sua abertura à dimensão missionária universal. Noutros termos, a abertura não é conseqüência da maturidade, mas condição para que uma Igreja amadureça.

Os bispos, reunidos em 1979 na cidade de Puebla (México), afirmaram que o estilo próprio da missão, a partir da América latina, é de "pobre para pobre". "Devemos dar de nossa pobreza" (P 368). As características primeiras desse estilo são que a missão não depende de recursos econômicos ou de uma pretensa superioridade cultural. Missão é partilha, dar e receber, aprender e ensinar e é, sobretudo, marcada pela pobreza. A pobreza evangélica, antes da pobreza material, "une a abertura confiante em Deus com uma vida simples, sóbria e austera, que aparta a tentação da cobiça e do orgulho" (P.1149). A pobreza evangélica revela-se no compromisso e na solidariedade com aqueles que Deus ama prioritariamente. Os pobres têm rostos precisos. Suas feições são de crianças, golpeadas pela pobreza; de jovens desorientados e frustrados; de indígenas e afro-americanos, vivendo em situações desumanas; de camponeses explorados e operários mal remunerados; de subempregados e desempregados; de marginalizados amontoados nas grandes cidades; de anciãos à margem da sociedade do progresso, etc (P 33ss).

A Igreja latino-americana pode oferecer, também, algo de original e importante: o sentido da salvação e da libertação, a riqueza de sua religiosidade popular, a experiência das Comunidades Eclesiais de base, a floração de seus ministérios, a esperança e a alegria de sua fé (P 368).

A dimensão missionária, que encontrou em Puebla seu momento de caracterização e de expansão, tem na espiritualidade seu momento profundo de enraizamento, desde que seja marcada pela universalidade, pela opção pelos pobres e pela consciência de um estilo próprio de atuar na missão. Repensar a elementos peculiares de espiritualidade exige que se afirmem traços característicos de uma missão a partir da América Latina. É uma missão a partir do Sul do mundo, em que a partilha e a troca são mais importantes do que a clareza de métodos e de conteúdos.

Neste sentido, "o envio até os confins do mundo" torna-se o elemento constitutivo da espiritualidade. É preciso sair e testemunhar a universalidade do amor misericordioso de Deus. O envio indica a confiança absoluta em Deus e é motivo de constante abertura da comunidade cristã. Dia virá, também, em que haverá a necessidade de alguém que volte para contar as obras da missão e, a partir disso, re-vitalizar as comunidades de origem. Os missionários têm duas tarefas importantes a cumprir: anunciar Cristo a todos os povos e rejuvenescer as comunidades de onde saíram. A missão não converte somente os "pagãos", mas também Jerusalém.

Este "Chegou a hora" de Puebla indica, sim, a abertura missionária da América Latina, mas também o enriquecimento das comunidades de origens que escutam e se re-vitalizam a partir do testemunho dos missionários.

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