Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Sendo que esta edição da revista abrange dois meses, escolhemos 4 domingos e festas entre julho e agosto

Costanzo Donegana

22.º Domingo do Tempo Comum – 03/09/2006

tentação do farisaismo, da observância exterior da religião, não morreu com o último fariseu da época de Jesus, porque é uma atitude que tem raízes profundas no comportamento humano e sempre se renova sob formas diferentes. Jesus (e, antes, os profetas) é muito duro com este tipo de comportamento, porque torna inviável um verdadeiro relacionamento com Deus.

Ele cita Isaías (29,13): - “Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim”.

Ele, que nos revelou Deus como Pai, não pode aceitar quem quer reduzir a religião a gestos exteriores, à exibição de formalismo vazio sem uma autêntica atitude filial.

Tiago, na segunda leitura, ajuda a entender isso concretamente:

- “Religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: socorrer os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção do mundo” (1,27).

A melhor maneira de traduzir o relacionamento com o Pai não é o louvor dos lábios, e sim viver a fraternidade, sobretudo em relação aos que são excluídos da família humana. A missão ajuda na conversão para a autenticidade cristã, porque seria uma traição reproduzir manequins sem alma, que só sabem repetir fórmulas vazias ou participar de celebrações emocionais, sem atingir, e muito menos mudar, a raiz da pessoa, mas que ocasionam apenas uma gratificação egoísta. Quem anuncia a novidade do Reino purifica o próprio íntimo, para que dele saiam atitudes puras e fraternas, que transformam o ambiente onde ele vive.

23º Domingo do Tempo Comum – 10/09/2006

Vamos comentar a segunda leitura, tirada da carta de São Tiago. A Boa Nova opera uma reviravolta na mentalidade e na práxis do mundo, porque os critérios de Deus baseiam-se na lógica do amor e não do sucesso, da vantagem, da exploração. Falando disso, devemos evitar o perigo de pensar que o mundo está fora da Igreja, numa visão dualista da realidade, que apresenta, de um lado, o mundo pecador e, do outro, a Igreja, pura e santa.

Tiago não escreve a pagãos, mas a cristãos: - “Meus irmãos, não misturem a fé com certos favoritismos pessoais”.

E expõe um exemplo, tirado de uma reunião da comunidade em que o rico é preferido ao pobre, usado como servo. Não adianta participar das reuniões litúrgicas, se nelas não é vivida a fraternidade: é uma contradição da fé.

Um dos ensinamentos mais explícitos da carta de Tiago é: - “A fé sem obras está completamente morta” (2,17).

O autor não quer contrapor a fé às obras, mas entende mostrar a lógica da vivência da fé, que deve frutificar:

- a falta de frutos é sinal da morte da árvore.

O testemunho típico da comunidade cristã – e, portanto, sua força missionária – é apontado, sem sombra de dúvidas, por Jesus:

- “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35).

Discriminações e favoritismos são a negação das palavras do Mestre. Tiago vai ainda mais adiante, dizendo que os pobres são os escolhidos de Deus. Deus ama a todos os seus filhos, mas o seu amor não é igualmente distribuído; Ele tem suas preferências, que vão para os pobres. Injustiça? Se a justiça consistisse em distribuir a todos as mesmas coisas, sim.

Mas Deus prefere aqueles que não são considerados, que são excluídos, que não são amados, para restabelecer a justiça ofendida pelas discriminações. “Os últimos serão os primeiros” (Mt 20, 16). Nossas comunidades vivem segundo esta lógica?

Minha impressão é que, de alguns anos para cá, estamos, em geral, dando muita importância à dimensão espiritual que está se tornando espiritualismo, deixando de lado a opção preferencial evangélica pelos pobres, que caracterizou a Igreja da América Latina. Que seja bem-vindo o espiritual, mas não à custa dos pobres!

“Quem quiser salvar a sua vida,
vai perdê-la; mas quem perde
a sua vida por causa de mim e
do Evangelho, vai salvá-la”.

(Mc 8, 35)

24.º Domingo do Tempo Comum – 17/09/2006

A passagem de Marcos, neste domingo, coloca-nos no centro do Evangelho:

- Jesus revela sua identidade de Messias sofredor, revelação do amor de Deus.

Esta imagem se confronta com a lógica da “carne”, da qual também Pedro está imbuído.

A raiz profunda que explica a Cruz está nas palavras que Jesus dirige, não só aos discípulos, mas também à multidão, a todos, e que são a regra de vida evangélica:

- “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la” (8,35).

Se salva, “realiza” sua vida, quem a doa; se perde, “fracassa” na vida, quem a segura só para si. Uma alegoria pode ilustrar esta verdade. Acordo cedo. Meu quarto está escuro. Mas um perfume forte e penetrante me envolve.

Ouço uma voz: - “Pega e sai”.

Acendo a luz: - na mesinha no canto descubro uma flor.

Aproximo-me: são cores nunca vistas, delicadas, nuançadas.

Pego a flor e saio. Pouca luz ilumina as ruas; algumas sombras rápidas as percorrem. Uma delas me ultrapassa, mas pára de repente e volta atrás. “Posso ver a sua flor?”, pergunta tímida. “Não!”, e fecho levemente as mãos. A luz está se tornando mais forte.

As ruas se animam: - olhares curiosos se dirigem à minha flor.

De vez em quando, alguém, mais corajoso, se aproxima e repete a pergunta: - “Deixe-me ver sua flor?”.

Nem respondo. Só fecho mais as mãos. A flor é minha! Já passou do meio dia, o sol bate com sua luz branca sobre os telhados e o asfalto das ruas. Tenho medo pela minha flor. Volto para casa, apressado. Fujo dos últimos olhares furtivos.

Chego. Entro.

Só eu e a flor.

Abro as mãos...

“Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”.

25.º Domingo do Tempo Comum – 24/09/06

São Vicente de Paulo – e, como ele, outros santos – dizia que os pobres são nossos patrões e nossos donos. Uma afirmação forte, que tem conseqüências práticas, que invertem a pirâmide social e religiosa e introduzem um novo tipo de relacionamento entre as pessoas.

É aquilo que Jesus quer dizer quando nos convida:

- “Se alguém quer ser o primeiro, deverá ser o último de todos e o servo de todos” (Mc 9, 35).

Exatamente o contrário do pensamento comum das pessoas, que querem se elevar pisando em cima dos outros e subindo nos ombros deles.

A linha de Jesus não significa abdicar a própria personalidade, e sim realizá-la autenticamente:

- o ser humano se realiza, realizando os outros.

Há muitas maneiras de concretizar isso: - minha felicidade consiste em tornar felizes os outros; minha grandeza aparece quando eu torno grandes os outros, etc.

Jesus repreende os apóstolos, porque os surpreende envolvidos numa mesquinha discussão sobre quem é o maior entre eles. Situação que continua se repetindo na comunidade cristã, nas palavras e nas ações. Ao invés de nos lançarmos na missão, servindo os homens e as mulheres do nosso tempo, sedentos de justiça e fraternidade, fechamos-nos em intrigas internas e irresponsáveis.

A consciência de sermos servidores, ao contrário, nos confere uma liberdade, que nos impele a sairmos de nós mesmos e nos dá alegria de ajudar os irmãos e as irmãs a alcançarem o desenvolvimento pleno do projeto de Deus sobre eles. O verdadeiro servidor é aquele que ocupa pouco espaço, mas que deixa um grande vazio quando sai.

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