Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Costanzo Donegana

5.º Domingo da Quaresma – 02/04/2006


"A Ressurreiçãi de Jesus Cristo", mosaico da Igreja de São Francisco de Assis em Nova Iorque

ueremos ver Jesus!” é o pedido dos gregos, os “pagãos” da época. O desejo deles não é mera curiosidade, mas expressa abertura a um conhecimento orientado para a fé. Não são pessoas pertencentes ao povo eleito que procuram Jesus, e sim “pagãos”.

Este episódio tem um claro sentido missionário, de universalidade:

- é a humanidade que anseia pela salvação e a procura em Jesus.

Porém, qual Jesus?

Na resposta dele está a indicação:

- Ele é o grão de trigo que morre para dar fruto.

É uma lógica contrária à do mundo:

- a morte produz e multiplica a vida (a salvação).

Mas é a experiência de todos:

- o egoísmo produz isolamento, solidão, enquanto a morte, por amor, gera comunhão.

Salvação é entrar neste dinamismo, morrendo à vontade de salvarmos nossa vida, com nossas forças e iniciativas egoístas, para doá-la sem reserva. Salva-se quem “salva” os outros, tirando-os da solidão, criando relacionamentos de fraternidade. Este movimento seria incompleto, e até frustrado, se se restringisse aos limites da família, da paróquia, da diocese. São os “gregos” que procuram Jesus e nós devemos ter ouvidos para perceber seu pedido e amor criativo, para que eles o encontrem.

Isso corresponde a uma das finalidades da missão:

- fundar a Igreja, que não é, em primeiro lugar, uma instituição que funciona, mas uma comunidade de irmãos e irmãs.

Semana Santa e Páscoa – de 09 a 16/04/2006

Estamos no momento de maior concentração na meditação e na vivência do mistério de nossa salvação e, ao mesmo tempo, de maior expansão missionária. O mistério pascal é o núcleo da fé cristã e do anúncio dos apóstolos (kerigma) e da Igreja. A sobriedade da liturgia destes dias é uma pedagogia cheia de sabedoria, que nos leva a deixar de lado tantas devoções boas, mas secundárias, para focalizarmos nossa atenção sobre o evento central da história.

Quinta-Feira Santa:

“Tendo amado os seus, amou-os até o fim” (Jo 13,1).
“Também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros” (Id 13,14).
“Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,25).

Sexta-Feira Santa:

“Ele foi traspassado por causa de nossas faltas, esmagado por nossos pecados” (Is 53,5).

A grande Oração universal, que inclui a Igreja, o papa, o clero e os leigos, os catecúmenos, a unidade dos cristãos, os judeus, os que não crêem em Cristo, os que não crêem em Deus, os poderes públicos, todos os que sofrem provações. Colocada logo após a leitura da paixão de Cristo, aponta, com toda evidência, a dimensão salvadora universal da morte dele.

Páscoa:

“Ó Deus,[...] realizais agora a salvação de todas as nações, fazendo-as renascer nas águas do batismo”
(3a oração da Vigília).
“Ó Deus, que fazeis vossa Igreja crescer sempre mais, chamando todos os povos ao Evangelho (6a oração da Vigília).
“Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia” (Mc 16,7).
“Ide dizer”: o anúncio pascal iniciou-se naquele dia e continua até nossos tempos.

A Igreja vive para isso: - dizer a todos, com as palavras e a vida, que Cristo morreu e ressuscitou!

Todo o resto vem em segundo lugar.

2.º Domingo da Páscoa – 23/04/2006

Quando Jesus aparece pela primeira vez aos discípulos, na noite da Páscoa, Tomé não está presente.

Reage: “Se não vir e colocar meu dedo na marca dos pregos e no lado dele, não acreditarei”.
Jesus aceita o desafio. Aparece com as chagas: - reais. Todas.

Nós, em lugar dele, teríamos feito uma cirurgia plástica: as chagas eram repugnantes, lembravam um momento doloroso, um fracasso. Jesus não. Por quê?

Jesus vive a vida toda, não só alguns momentos selecionados, “positivos”. Vive também os momentos “negativos”.

Qual a diferença, para ele, entre positivo e negativo?

“Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente” (Jo 10,18).

Para Jesus é positivo aquilo que é vivido por amor e no amor; negativo, aquilo que está fora do amor. Por isso, ele fica com as chagas, também após a ressurreição. As chagas não são morte, e sim vida, são positivas. O Jesus das chagas se identifica com o Jesus da ressurreição. Elas não são um episódio superado e cancelado pela ressurreição, mas possuem em si a marca da eternidade, a marca do amor. Não passarão jamais. São a marca registrada de um Deus que quis (e quer) ser homem em tudo, não pairando acima da humanidade sofrida, mas identificando-se com ela.

Para nos salvar, isto é, para nos dar a possibilidade de sermos vivos quando todos (e nós mesmos) cantam em coro que somos mortos, que “isto não é vida”. Nós somos tentados a excluir as chagas, a fugir delas, em nós e ao nosso redor. Há pessoas que nunca entram num hospital, que nunca vão a um velório, que fogem de um mendigo, que não param ao lado de um sofrimento..., nem querem olhar. Jesus sem chagas não existe, Deus sem chagas não existe.

“Por que vocês procuram entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5).

Paradoxo cristão! O Cristo sem chagas está entre os mortos, entre os que fogem da vida, os que não têm coragem, os que não sabem amar.

“Ponha aqui o seu dedo... Estenda a sua mão e toque o meu lado” (Jo 20,27).

3.º Domingo da Páscoa – 30/04/2006

Até parece que as leituras destes domingos são pouco criativas, porque estão sempre repetindo o mesmo refrão:

- “O Messias devia sofrer e ressuscitar dos mortos, ao terceiro dia” (Lc 24,46; cf também 1.ª e 2.ª leitura).

Estamos no tempo pascal e continuamente se fala do sofrimento e da morte do Cristo.
No comentário do domingo anterior se encontra a explicação fundamental.

Vamos nos deter aqui sobre a afirmação final de Jesus no Evangelho:

- “Vós sois testemunhas disso” (Lc 24, 48).

É a missão dos apóstolos e da Igreja durante os séculos. Para cumprir esta tarefa, Jesus “abriu-lhes a mente para que entendessem as Escrituras” (Id, v.45).

Como eco, ressoa outra palavra do Mestre:

- “Eu te lovo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Podemos anunciar somente o que entendemos, não com nossa inteligência, mas por um dom de Deus e, para isso, é necessário sermos “pequeninos”.

É uma sintonia no Espírito Santo:

- “Se vocês quiserem chegar ao verdadeiro conhecimento das Escrituras, apressem-se, em primeiro lugar, para adquirir uma inabalável humildade de coração.

Ela os levará, não à ciência que incha, mas àquela que ilumina, mediante a perfeição do amor” (João Cassiano).

A chave para abrir o sentido escondido está na mão do cordeiro imolado:

- “Vós sois digno de o livro nas mãos receber e de abrir suas folhas lacradas.

Porque fostes por nós imolado; para Deus nos remiu vosso sangue dentre todas as tribos e línguas, dentre os povos da terra e nações” (Ap 5,9).

Volta, de novo, a centralidade da morte e ressurreição de Cristo na vida da Igreja e no seu testemunho: - “Vós sois testemunhas disso”:

- não de nossas idéias ou experiências, mas do único evento salvador, selado no sangue derramado. Não por acaso, as testemunhas por excelência, na vida da Igreja, se tornaram os mártires (do grego mártyr = testemunha).

ESTA SEÇÃO É INSPIRADA NA LITURGIA DOMINICAL

Ela não quer ser um comentário exegético ou um subsídio litúrgico, mas simplesmente alguns flashes para uma leitura em chave missionária da Palavra de Deus apresentada na liturgia.

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