Revista "MUNDO e MISSÃO"

Educação

TALITA KUM

Agência Fides

Nas guerras que se sucedem em alguns países da África, quem mais sofre são as crianças que, muitas vezes, ficam abandonadas a si mesmas. Mas há quem as ajude a voltar à vida

As conseqüências da guerra são imensas e serão necessárias ainda muitas gerações para que sejam esquecidas. Uma delas é a falta de escolarização para muitas crianças: milhares delas vivem na rua, traumatizadas, não lembram de um dia terem freqüentado a escola, nem que série um dia cursaram. Muitas dessas crianças nem a idade lembram. "Nós temos o dever de esperar! Os congoleses que estão longe de seu país não podem esquecer suas crianças!". É esse o apelo lançado por irmã Marie Thérèse Nkouka, coordenadora geral do projeto "Talita kum", iniciado no Congo Brazzaville.

Esperança

"Talita kum" foram as palavras que Cristo pronunciou quando se dirigiu à filha, já morta, de Jairo e significam: "Menina, levanta-te". Esse projeto quer ser uma resposta da Igreja africana para os problemas das crianças traumatizadas pelas inúmeras guerras que assolaram o continente.

Só na capital, Brazzaville, há mais de 1.500 crianças abandonadas que vivem nas ruas. 25% delas são de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, separada de Brazzaville somente por um rio. Esses meninos moram nos edifícios danificados pela guerra e abandonados, andam em bandos pelas ruas pedindo esmola nas paradas de ônibus, expostos às ameaças e à violência dos policiais.

"Em dezembro de 1998, entramos em contato com as crianças refugiadas que se encontravam nos centros de acolhida geridos pelas organizações humanitárias internacionais. O problema da educação delas chamou-nos a atenção, pois quem as estava ajudando só se preocupava em dar-lhes comida e abrigo, diz sempre irmã Marie Thérèse, religiosa da Congregação da Divina Providência de Ribeauville, também professora na Universidade Marien Ngouabi de Brazzaville. Começou então a animação sócio-cultural: esses meninos foram convidados a cantar, dançar, jogar. Em poucas palavras: fazendo com que eles voltassem a se sentirem vivos, apesar das trágicas situações por que tinham passado.

Instrução

Um dos projetos começou com 200 crianças para, em seguida, alcançar o número de 10 mil, com 250 professores voluntários.

Depois de ter ouvido as crianças em dez centros de acolhida geridos pela Caritas e ter individuado suas reais necessidades, os idealizadores do projeto "Talitha kum" tentaram dar uma resposta. As próprias crianças pediram que, além de alimentação e abrigo, pudessem receber instrução, pois muitas delas tinham abandonado a escola havia dois, três ou até quatro anos. Os próprios pais pediram escolarização para os filhos. Até dom Barthélémy Batantu, então bispo de Brazzaville, pediu que se fizesse algo para essas crianças, mesmo que ainda não houvesse estruturas adequadas.

Infelizmente, essa situação continua até hoje e a maior parte das crianças é escolarizada ao ar livre ou em salas de aula improvisadas em barracões abandonados.

Hoje, o projeto recebe ajuda também do Ministério da Instrução e da Pesquisa Científica. Muitas crianças deixaram a rua, evitando o risco de encaminhar-se para a prostituição ou de entrar no tráfico de drogas.

O objetivo do centro é prepará-las a se inserirem mais tarde nas escolas normais. No último ano, 52 % delas conseguiram um nível de instrução que lhes permitiu freqüentar as escolas públicas. O problema maior é o das estruturas, totalmente ausentes. Dos 6 centros que estão funcionando este ano, dois estão hospedados em edifícios da Igreja, ao passo que os outros, como o Centro Pe. Paul Ondia, que recebe 1000 crianças, funciona debaixo de árvores.

Apelo

Irmã Marie Therese lançou um apelo, exortando todas as crianças africanas a acreditarem na vida e os africanos espalhados pelo mundo para que ajudem as crianças que permaneceram na pátria. "Não podemos contar sempre com as ajudas que vêm de fora. Os congoleses que estão no exterior têm o dever de ajudar os meninos que ficaram no país. Temos o dever de esperar... A vida é mais forte do que a morte!".

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