Revista "MUNDO e MISSÃO"

Ecologia

IGREJA E GREENPEACE VERSUS SOJA NA AMAZÔNIA

O cultivo da soja na Amazônia superou todos os limites e ameaça o equilíbrio ecológico da região

por Alberto Garuti

O s exportadores de grãos da Amazônia, principalmente os de soja, divulgaram, em fins de julho, um documento no qual se comprometem a não comprar, no prazo de dois anos, a soja produzida nas áreas desmatadas da mesma região.
Esse documento é fruto de uma discussão, melhor seria dizer de uma briga, entre ambientalistas e comerciantes de grãos, que se prolonga há muito tempo, e na qual se acha envolvida também a Igreja católica.
A região de Santarém está se tornando o Eldorado da soja. Na mesma cidade, a multinacional Cargill construiu um gigantesco porto para escoamento de grãos produzidos, tanto no Pará como no Mato Grosso, ou em outros estados.
A busca desenfreada de novas áreas para a plantação dessa leguminosa está causando efeitos devastadores ao meioambiente, como:
• aceleração do desmatamento da floresta, que aumentou de 15 mil hectares para 28 mil ao ano só em Santarém e arredores. O preço do terreno por hectare é bem menor do que no Mato Grosso, daí a busca contínua de novas terras para desflorestar na região;
• aumento de grilagem nas terras, que está produzindo êxodo rural e favelização na área urbana das cidades grandes. Muitos pequenos produtores se iludem pelos valores oferecidos por suas terras e as vendem. Quando chegam à cidade, descobrem que não receberam tanto assim e ficam desempregados. Ainda há casos de pessoas que nem ao menos recebem, pois são expulsas de suas propriedades para abrir espaço para a soja.
Contra essa situação intervieram, tanto a Igreja católica como organizações não-governamentais, por exemplo o Greenpeace, que se tornaram logo objeto de ameaças por parte daqueles que estão interessados somente em auferir grandes lucros do negócio do momento, a exportação da soja.

Ameaças à Igreja católica

O arcebispo de Belém, dom Orani João Tempesta, entregou, no dia 27 de junho, uma carta ao procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, em nome dos bispos do regional Norte 2, cobrando maior presença do Ministério Público Federal no interior do estado do Pará.
Na carta, dom Orani se mostra preocupado com as ameaças de morte ao bispo do Xingu, dom Erwin Krautler, e aos padres Edilberto Sena, diretor da Rádio Rural de Santarém e coordenador da Frente de Defesa da Amazônia, e José Boeing, que além de padre, é advogado e presidente da subseção Santarém da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Mas eles não são os únicos que sofrem retaliação por defenderem o meio ambiente do Pará. Coordenadores e agentes de pastoral, pequenos agricultores, trabalhadores rurais, entre outros, sofrem intimidações dos reis do agronegócio, justamente por serem a favor do desenvolvimento sustentável da região.
As ameaças foram expressas de uma maneira muito clara através da internet: “Esse padre tem que morrer”. “Ninguém tem mais sossego, se não for dado um jeito nesse bispo” (dom Erwin). “Se você, amigo, tiver a oportunidade de pegar um ativista na rua, bata, mais (sic) bata até a morte; pode ser homem ou mulher; bata para matar; pois quando um morrer, aí sim eles vão ver de quem é a Amazônia!!! Matem os padres Edilberto Sena e José Boeing pelo bem de Santarém”.
Dom Orani, em sua carta, conclui: “À luz da doutrina social da Igreja, o cuidado com o meio ambiente é condição essencial para qualquer projeto de desenvolvimento econômico e social, pois a ‘grande tentação do desenvolvimento consiste em que o homem, movido pelo seu egoísmo e quebra de fraternidade, ameace destruir o gênero humano’”.

Ameaça e luta contra o Greenpeace

A passagem do navio do Greenpeace (“paz verde”) por Santarém não tem sido pacífica. No dia 19 de maio, os ativistas da Ong sofreram o pior ataque desde que a embarcação começou sua expedição pelas costas brasileiras.
Uma equipe da Ong iniciou um protesto em frente ao porto da multinacional Cargill: os ativistas exibiram faixas de protesto, enquanto a soja era transportada para o silo da empresa, e tentaram parar o carregamento do produto. Os plantadores de soja começaram a atirar pedras nos ativistas e tentaram subir no barco. A polícia interveio e aconselhou a Ong, por segurança, a levar o navio a mais de uma milha da costa. Dezoito pessoas foram detidas, entre jornalistas, voluntários e oito escaladores, que subiram a esteira do porto e conseguiram bloqueá-la, impedindo, assim, o fluxo da soja para dentro do silo. Em seguida, foram liberadas.
Vários ativistas receberam claras ameaças de morte por parte dos sojeiros.

Soja versus Greenpeace

O Greenpeace, além das manifestações de protesto feitas em Santarém, está liderando uma campanha internacional pelo boicote à compra de grãos e derivados, como o óleo, produzidos na Amazônia. Os principais alvos são os McDonalds, as grandes cadeias de supermercados e de fast-food (alimentação rápida). A iniciativa parece estar tendo sucesso.
O Código florestal afirma que as propriedades agrícolas na Amazônia devem manter 80% de sua área com mata nativa e apenas 20% podem ser desmatados para a exploração econômica. Difícil dizer se essas porcentagens estão sendo respeitadas.
Por outro lado, o negócio da soja esteve em alta na Amazônia, nos últimos anos, e muitas pessoas conseguiram empréstimos para comprar terras ou as invadiram. Agora os preços caíram e os produtores se vêem na necessidade de produzir cada vez mais para compensar o que perderam com a queda dos preços. O risco é que a busca desenfreada de terrenos para plantar faça com que se passe por cima de qualquer código e não se respeite nenhuma porcentagem.
A Cargill, o primeiro alvo de todas as acusações, defende-se dizendo que, de toda a soja escoada através do porto que ela construiu em Santarém, somente 10% é produzida na região. O resto vem do Mato Grosso ou de outros estados.
Os ativistas, tanto do Greenpeace como da Igreja, respondem que ninguém acusa diretamente a empresa norte-americana ou a responsabiliza pela violência, mas afirmam que sua presença estimula a grilagem das terras e a produção desenfreada de soja, pelo fato de haver na região um comprador garantido.
Problemas ecológicos e ambientais fizeram com que viesse à tona algo que tem raízes muito mais profundas e que vem de longe, desde o começo da história do Brasil. A violência no campo está enraizada no problema da distribuição das terras, que só pode ser solucionado através de uma reforma agrária ampla e massiva, que democratize o acesso à terra. É preciso declarar que o latifúndio é o mal maior e que é necessária uma lei que fixe os limites da propriedade da terra e do campo, para que muito mais famílias possam ter acesso à terra e aos bens que ela produz.
A própria moratória de dois anos na compra da soja não é uma solução que agrada aos ambientalistas. Como diz Paulo Adário, diretor da campanha do Greenpeace para a Amazônia, “nada impede que um produtor, que vá plantar soja daqui a três anos, deixe de desmatar agora”.
É preciso descobrir soluções mais efetivas e radicais.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar