Revista 'MUNDO e MISSÃO"

Demografia

 

Pe. Piero Gheddo
e-mail.: gheddo.piero@pime.org
Pe. Pedro Miskalo
e-mail.: pmiskalo@mundomissao.com.br

Jesus condena o pecado, mas ama o pecador. Entranhado na humanidade sofredora, ele defendeu a dignidade humana e o ser social. Desde então, passando pelos Padres da Igreja e pela Idade Média, a Igreja coloca “o homem todo e todos os homens” no centro de suas preocupações. É esta a perspectiva da encíclica social “Caritas in Veritate”.

ouco depois do lançamento do livro O Capital (1867), de Karl Marx – que introduziu conceitos econômicos complexos, analisou os abusos sobre os salários, a acumulação do capital e o modo de produção capitalista –, a Igreja católica se deu conta que estava na hora de desenvolver uma doutrina social enraizada nos novos tempos. Algo que despertasse a consciência cristã sobre os abusos aos quais era submetido o operário. Desde então, conclama homens e instituições a disseminarem a paz e a justiça no mundo.

O marco

O marco no magistério social pontifício foi a encíclica Rerum novarum, publicada em 1891 pelo papa Leão XIII. O documento tratou de um tripé (pessoas, sistemas e estruturas) para a promoção da justiça e da paz nos tempos modernos, tempo “das coisas novas”.

Através dela, o papa afirmou que o princípio norteador da questão operária (social) é “a dignidade da pessoa, na qual se fundam os direitos inalienáveis:

- a vida e a liberdade religiosa”, além de outros direitos como: o uso dos bens, a função social da propriedade, o salário justo, a liberdade, a participação na vida do Estado, a justiça, a educação.

A busca da justiça integra a missão

Outras encíclicas e mensagens sociais surgiram em seguida, como a Quadragesimo anno (1931), promulgada por Pio XI sobre a reconstrução da Ordem Social; a Mater et Magistra (1961) e a Pacem in Terris (1963), ambas de João XXIII. A primeira, sobre a Igreja (Mãe e Mestra) e o progresso social; a segunda, sobre a Paz na Terra. Do Vaticano II (1962-1965) – uma revoada na Igreja para uma pastoral atualizada aos novos desafios - veio a Constituição pastoral Gaudium et Spes, que atribuiu aos leigos o compromisso de ajudar o mundo a alcançar justiça, amor e paz na linha de frente da pobreza e das ameaças de guerra nuclear. Depois dele, os papas não se cansaram de levantar a voz, através de encíclicas sociais e de outros documentos do magistério pontifício. Em 1967, por exemplo, Paulo VI deu ao mundo a magistral Populorum progressio, um angustiante apelo “ao direito das nações pobres ao desenvolvimento humano pleno”.

Do Sínodo dos Bispos, em 1971, surgiu a expressão:

- “A obra da justiça é parte integrante da missão evangelizadora da Igreja” (n.° 5).

João Paulo II se fez ouvir, através de inúmeros documentos em favor dos direitos humanos, da ação política dos leigos, da dignidade do trabalhador, da defesa da vida e da condenação do aborto, dos areópagos modernos, da procura pela justiça, do compromisso com a preservação da natureza, etc. Chegou a vez de Bento XVI.

Caritas in veritate

A “Caridade na verdade” (Caritas in veritate), terceira e mais recente encíclica de Bento XVI, foi assinada na festa dos apóstolos Pedro e Paulo, 29 de junho, e publicada no dia 7 de julho último. Ela atualiza a mensagem da Populorum progressio, definida pelo presidente da Índia como “a Magna Carta dos pobres”, porque denunciava o abismo entre povos desenvolvidos e povos miseráveis.

Entretanto, pouco mais de 40 anos depois da mensagem de Paulo VI, a humanidade enfrenta outros graves desafios em todos os campos da atividade humana:

- cultural, religiosa, econômica, científica e tecnológica.

Hoje, o mundo é apenas uma “aldeia”, na qual todos se salvam juntos ou, juntos, todos se afundam. “O risco do nosso tempo – alerta Bento XVI - é que, à real interdependência dos homens e dos povos não corresponda a interação ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar os objetivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora” (9).

Mudança de paradigma

O ministro da Fazenda italiana, Giulio Tremonti, elencou as mudanças que o mundo viu desde a queda do Muro de Berlim (1989) até a recente crise econômico-financeira mundial e afirmou:

- “São 20 anos que pedem uma coerente mudança dos paradigmas.

Com a globalização, o pensamento não pode ser apenas mercantil, deve ser também civil”. Acrescentou:

- “A encíclica é o primeiro grande documento de análise para a reflexão sobre o novo mundo, uma guinada para a política.

Não basta a ilusão da autossuficiência, é preciso empenhar-se para o bem comum de toda a sociedade humana”.


O retrato fiel da humanidade

O desenvolvimento do homem vem de Deus e deve conduzir a Ele

A Caritas in veritate vai ao coração da Populorum Progressio:

- “Criado por Deus, o homem não é autossuficiente.

Sem Deus, o desenvolvimento humano é ‘desumanizado’” (10-12). As sociedades pós-cristãs são ricas, democráticas e muito desenvolvidas, mas “sem alma”. Portanto, “o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento” (8) “para a construção da sociedade segundo a liberdade e a justiça” (13). O desenvolvimento do homem é uma vocação, porque nasce “de um apelo transcendente” e é integral, quando “voltado para a promoção de cada homem e de todos” (16-18).

Segundo tais premissas, as causas do subdesenvolvimento têm uma raiz:

- a “falta de fraternidade entre os homens e entre os povos” (19).

“A sociedade globalizada nos torna vizinhos, mas não irmãos... É preciso que a economia evolua para êxitos plenamente humanos” (19-20), para que não se dissolva. A encíclica quer unir firmemente a vida do homem àquela fé que ilumina e guia a procura de soluções aos grandes problemas da humanidade. Assim, é necessária uma nova perspectiva sobre o homem que só Deus, que é Verdade e Amor, pode dar.

À procura de um novo modelo de desenvolvimento

Bento XVI afirma que a crise atual “nos obriga a rever o caminho” (21), através de uma “total revisão do desenvolvimento” (23) e convida a uma profunda reflexão sobre o sentido da economia e do modelo de desenvolvimento, “para corrigir-lhe as disfunções e as distorções” (32). “O primeiro capital a ser salvaguardado e valorizado é o homem, a pessoa na sua integralidade” (23-25). É preciso “criar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família” (44).

A encíclica supera o conceito ingênuo de uma solidariedade genérica e indica o ideal para promover a revolução social: a fraternidade. Os homens, filhos do mesmo Deus, são todos irmãos e devem exprimir o amor gratuito ao lado dos povos mais pobres, ou seja, “dar primeiro do que rceber”. É a primeira vez que uma encíclica social une o direito à vida e à liberdade religiosa ao desenvolvimento de cada povo e da humanidade. A questão antropológica (aborto, eutanásia, manipulações da identidade humana, opções genéticas, etc) se torna uma questão social.

Economia e finanças

O papa escreve:

- “Enquanto instrumentos, a economia e as finanças podem ser mal utilizadas, se quem as gere tiver apenas referimentos egoístas (...)

A esfera econômica pertence à atividade do homem e, exatamente por ser humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada” (36). É preciso “um modelo de economia de mercado capaz de incluir, ao menos intencionalmente, todos os povos e não somente aqueles adequadamente habilitados, (...) sem que o projeto de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros” (39). O mundo rico não pode continuar indo atrás do supérfluo, do esbanjamento, do luxo, do ter sempre mais, “enquanto direitos elementares são negados e violados a boa parte da humanidade” (43).

Fraternidade, gratuidade e desenvolvimento econômico

“Se quiser ser autenticamente humano, o desenvolvimento econômico, social e político tem necessidade de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão de fraternidade” (34). Sem formas internas de solidariedade e de confiança recíproca, o mercado não pode esgotar plenamente a própria função econômica. A crise atual mostra que os “tradicionais princípios da ética social – transparência, honestidade e responsabilidade – não podem ser descuidados”. Mercado e política necessitam de pessoas abertas ao dom recíproco. Sua gestão deve ter em conta a comunidade local e evitar o emprego “especulativo” de recursos financeiros. Com “uma orientação cultural e comunitária, aberta à transcendência”, existe no mercado “a chance de uma grande redistribuição da riqueza” (42).

Diálogo entre culturas, ecologia, transparência

É necessário o diálogo entre as culturas para se criar um modelo diferente de desenvolvimento.


Papa assina a nova encíclica

A encíclica condena, por exemplo, o viés ambientalista que considera a natureza “um tabu intocável, algo mais importante que a própria pessoa humana” (48) e sua consequente ideologia:

- o aumento da população como causa principal do subdesenvolvimento.

“A abertura moralmente responsável à vida é uma riqueza social e econômica. Grandes nações puderam sair da miséria, justamente graças ao grande número e às capacidades de seus habitantes” (44). Os organismos internacionais deveriam se interrogar sobre a real eficácia de seus aparatos burocráticos. Muitas vezes “os pobres servem para manter a vida dispendiosa das organizações burocráticas”. Daqui, o convite a uma “plena transparência” sobre os fundos (45-47).

Outros desafios

Os prodígios da tecnologia não bastam para o desenvolvimento humano dos povos. E os meios de comunicação social são chamados a promover “a dignidade da pessoa e dos povos” (73).

Mas é no campo da bioética que ocorre “a luta cultural entre o absolutismo da tecnicidade e a responsabilidade moral do homem”, e o papa acrescenta:

- “A razão sem a fé é destinada a perder-se na ilusão da própria onipotência”.

As pesquisas sobre embriões e a clonagem “creem ter solucionado todo mistério” e há que se temer “uma sistemática planificação eugenética dos nascidos” (74-75). Enfim, a encíclica exorta o homem a ter “olhos novos e um coração novo” para “superar a visão materialista dos sucessos humanos” (77), porque, “sem Deus, o homem não consegue nem compreender quem ele seja” (78).

O que faltou na encíclica

Na encíclica, faltou algo a respeito do
que se pode fazer para ajudar os países
pobres:

- a preocupação com a educação.

A encíclica acentua o direito dos
pobres ao alimento, mas não diz como
produzi-lo. Se alguém tem fome, dê
também o peixe, mas ensina-o a pescar.
A educação é o principal motor
do desenvolvimento, o meio, o instrumento
que desenvolve as faculdades
intelectuais do homem e do seu povo.

Clique aqui no blog do Pe. Piero Gheddo
http://gheddo.missionline.org

 

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