Revista "MUNDO e MISSÃO"

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Novembro de 2006 - Edição n.º 4
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO e MISSÃO - n.º 107

sociedade de consumo é religiosa às avessas. Quase não há clipe publicitário que deixe de valorizar um dos sete pecados capitais:

- soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. ‘Capital’ significa ‘cabeça’. Ensina meu confrade Tomás de Aquino (1225-1274) que são capitais os pecados que nos fazem perder a cabeça e dos quais derivam inúmeros males.

A soberba faz-se presente na publicidade que exalta o ego, como o feliz proprietário de um carro de linhas arrojadas.

A inveja faz crianças disputarem qual de suas famílias tem o melhor veículo.

A ira caracteriza o nipônico quebrando o televisor por não ter adquirido algo de melhor qualidade.

A preguiça está a um passo dessas sandálias que convidam a um passeio de lancha ou abrem as portas da fama com direito a uma confortável casa com piscina.

A avareza reina em todas as poupanças e no estímulo aos prêmios de carnês.

A gula, nas lanchonetes que oferecem muito colesterol em sanduíches piramidais.

A luxúria, na associação entre a mercadoria e as fantasias eróticas: a cerveja espumante identificada com mulheres que exibem seus corpos em reduzidos biquínis”.

(Frei Betto –“Mandamentos do consumismo” – Adital)

mundo passa por uma crise. Desequilíbrio ecológico e distanciamento nas relações humanas. O primeiro, fruto do exacerbado desenvolvimento industrial para suprir nossas necessidades mais íntimas, relevantes e supérfluas.

O segundo, de nossa mania de enxergar cifrões nos olhos e no peito das pessoas, inclusive das mais próximas e queridas. Compramos tudo, pois tudo tem seu preço e em nossa ânsia consumista, consumimos a nós mesmos. Será esse o preço de nossa hipocrisia e negligência?”.

(Jonathan Constantino da Equipe do Entre Jovens)

Mapa da fome no mundo
Proporção de pessoas subnutridas

Nos Estados Unidos, crianças e adolescentes gastam US$ 30 bilhões em compras e são responsáveis por US$ 600 bilhões relativos aos gastos dos pais.

Aos 18 meses, um bebê já reconhece logotipos; aos 2 anos, pede produtos pelo nome; aos 6 identifica 200 marcas diferentes.

“Marqueteiros já contratam cientistas e estudam o comportamento cerebral para saber como os anúncios são entendidos pelas crianças e pelos jovens. Examinam o cérebro no momento em que o público está vendo a propaganda, para captar a reação aos diferentes estímulos”.

(Juliet Schor, economista e socióloga)

“O consumismo afeta o equilíbrio do planeta e os valores dos cidadãos. Se toda a sociedade não se comprometer com a educação infantil, incluindo os meios de comunicação, é possível que essas crianças cresçam tendo para si apenas os valores ditados pelo consumo”.

(Ana Lúcia Villela, pedagoga)

 

“Os custos com a obesidade nos Estados Unidos são de 118 bilhões de dólares, enquanto o custo com os males do cigarro é menos da metade desse valor, 47 bilhões anuais. O Brasil, hoje, já deve atingir 1 milhão de crianças obesas”.

(José Augusto Taddei, médico)

“Os pais querem impor limites, mas não sabem como. Têm medo de ser muito rigorosos e acabar com o amor-próprio dos filhos. Querem ser obedecidos, mas fogem das situações de conflito. Sentem-se culpados quando dizem não’’.

(Ceres Alves de Araújo, psicóloga, professora da PUC)

Retrato do imenso contraste (cidade do Rio de Janeiro)

 
Favela da Rocinha
Gávea
• IDH*
0,61
0,89
• Analfabetismo
18%
2%
• Nº médio de anos de estudos
3,7
11,9
• Chegam à universidade
2%
55%
• Renda per capita
R$ 153
R$ 1.743
• Salário médio
R$ 214
R$ 2.042
* O IDH – Índice de desenvolvimento Humano varia entre 0 e 1.
Quanto mais distante de 0, maior é o desenvolvimento humano.
Fonte: Jornal O Estado de S.Paulo, caderno Aliás Debate, 25/08/06, pg. n.º 12

O consumismo pode gerar desemprego, colaborar na destruição de ecossistemas e na extinção de espécies vegetais e animais, na produção cada vez maior de lixo não biodegradável, no aumento da poluição e na piora da qualidade de vida das populações do planeta como um todo.

É preciso reconhecer os tipos de consumo:

a) alienante: o consumo de certos produtos, de certas marcas, passa a ser considerado como a melhor opção para alcançar a felicidade e a realização humana;

b) compulsório: os pobres e excluídos, subempregados, desempregados buscam maximizar o poder de consumo dos poucos recursos que têm para satisfazer suas necessidades básicas;

c) de mediação do bem viver: não segue ondas consumistas – usa critérios avaliativos e pode converter-se em um consumo solidário;

d) solidário: considera não só o bem viver pessoal, mas também o coletivo.

(Baseado em “A revolução das redes” – Euclides André Mance – Vozes)

“Só se adquire perfeita saúde vivendo na obediência às leis da Natureza. A verdadeira felicidade é impossível sem verdadeira saúde, e a verdadeira saúde é impossível sem rigoroso controle da gula. Todos os demais sentidos estarão automaticamente sujeitos a controle quando a gula estiver sob controle. Aquele que domina os próprios sentidos conquistou o mundo inteiro e tornou-se parte harmoniosa da natureza”.

(Gandhi)

Consumo Responsável: o X da questão!

Consumo responsável é a capacidade de escolher e/ou produzir serviços e produtos que contribuam, de forma ética e de fato, para a melhoria de vida de cada um, da sociedade e do meio ambiente. A informação é fundamental para o exercício do consumo responsável e para o processo de conscientização do consumidor. Quem produziu aquilo que se está comprando, em que condições de trabalho foi produzido, utilizando que tipo de matéria-prima, com que cuidados ambientais – são perguntas difíceis de serem respondidas, por falta de informação nos rótulos e desconhecimento do comerciante. O Comércio Ético e Solidário promove a aproximação entre o produtor e o consumidor, garantindo uma relação de maior responsabilidade, respeito e igualdade. Afinal, deste encontro, pode
começar a construção de um futuro melhor!

Há oásis em meio ao deserto:

INSTITUTO KAIRÓS

Nasceu com a proposta de difundir, ampliar, praticar e consolidar o Consumo Responsável em todas as suas possibilidades de aplicação tanto pedagógica quanto prática. Apresenta o Manual prático do Consumo Responsável, com dicas e endereços sobre comércio ético e solidário.

INSTITUTO AKATU

ONG criada em 15 de março (Dia Mundial do Consumidor) de 2001, no âmbito do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, para educar e mobilizar a sociedade para o consumo consciente. A palavra “Akatu” vem do tupi e significa, ao mesmo tempo, “semente boa” e “mundo melhor”. Ela traduz a idéia de que o mundo melhor está contido nas ações de cada indivíduo. A missão do Akatu é educar, sensibilizar e mobilizar para o consumo consciente. Para cumprir esta missão, trabalha em várias frentes: desenvolvimento de atividades em comunidades; divulgação de conceitos e de informações na internet, em publicações, na mídia informativa e em campanhas publicitárias; desenvolvimento de pesquisas; e elaboração de instrumentos de avaliação e informação sobre o consumo consciente.

er objetos e bens não aperfeiçoa, de per si, o ser humano, se não contribuir para a maturação e para o enriquecimento do seu ‘ser’, isto é, para a realização da vocação humana como tal. Certamente, a diferença entre ‘ser’ e ‘ter’ — perigo inerente a uma pura multiplicação ou mera substituição de coisas possuídas em relação com o valor do ‘ser’ — não deve transformar-se necessariamente numa antinomia (contradição, oposição). Uma das maiores injustiças do mundo contemporâneo consiste precisamente nisto: que são relativamente poucos os que possuem muito e muitos os que não possuem quase nada. É a injustiça da má distribuição dos bens e dos serviços originariamente destinados a todos.

(João Paulo II, Sollicitudo rei socialis – n.º 28)

Em preparação ao Natal que vai chegar, vale refletir:

“Jesus em pessoa é o dom de Deus à humanidade, do qual as nossas prendas nesta festa querem ser reflexo e expressão. Por isso, é oportuno como nunca privilegiar aqueles gestos que manifestam solidariedade e acolhimento para com os mais pobres e necessitados”.

(João Paulo II – ANGELUS 22/12/2002)

“Adicione sonhos à sua árvore e plante sementes... ao invés de pendurar bolas espelhadas, olhe o seu próximo e estenda as mãos”.

(Brenda Marques Pena, poeta e coordenadora do Projeto Imersão
Latina de Comunicação Alternativa para América Latina e Caribe)

“Eu vi duas cidades, ou era a mesma? A cidade: casas, que podem ser trancadas; igrejas, que podem ser visitadas; ruas, nas quais nos cruzamos às pressas. A cidade: casas, abertas para o hóspede inesperado; igrejas, nas quais o mistério nos olha; ruas, nas quais vamos um ao encontro do outro. O estrangeiro aqui não é estranho, como Aquele para o qual não havia lugar, então, nas hospedarias”.

(Klaus Hemmerle, Deus se fez criança)

“O Presépio pode ajudar-nos a compreender o segredo do verdadeiro Natal, porque fala da humildade e da bondade misericordiosa de Cristo que, ‘embora fosse rico, se tornou pobre’ (2 Cor 8, 9) por nós. A sua pobreza enriquece quem a abraça e o Natal traz alegria e paz àqueles que, como os pastores em Belém, acolhem as palavras do Anjo: ‘Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura’ ” (Lc 2, 12).

(Papa Bento XVI, Angelus – 11/12/2005)

“As pessoas muitas vezes aproveitam o 13.º salário para gastar com presentes para os familiares e amigos. Mas será que o real presente é o material? O mais importante não seria oferecer a própria presença para uma conversa amiga, uma troca de conselhos, um diálogo, que muitas vezes não acontece no lar de muitas famílias?”.

(Cícera e Douglas, do grupo Entre Jovens)

Para refletir e ... agir!
Conta uma parábola que um monge, caminhando rumo ao seu mosteiro, encontrou uma criança maltrapilha, abatida pela fome e pelo frio. Então, considerando tal situação muito injusta, questionou Deus: “Por que o Senhor nada fez por aquela criança?”. De repente, um clarão, e Deus lhe responde: “Eu já fiz você!”.

Livros que aprofundam o tema:

“Os vícios capitais e os novos vícios” – (Umberto Galimberti – Paulus)
“A revolução das redes” – (Euclides André Mance – Vozes)

Nosso Convite!

Mundo e Missão propõe aos seus leitores que se reúnam EM DEBATE nas escolas, paróquias, grupos de jovens, seminários, conventos, centros de formação... Depois, encaminhem, por favor, para nós, questionamentos, reflexões, opiniões, dúvidas, para que possamos compartilhar com os outros leitores. Participem! Enviem as conclusões (pessoais ou de grupo) para: Editora MUNDO e MISSÃO – Rua Joaquim Távora n.º 686 – 04015-011 – São Paulo - SP – E-mail: mundomissao@terra.com.br

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