Revista "MUNDO e MISSÃO"
Cultura - Culturas
por Ernesto Arosio
É na praça que os cidadãos dançam, cantam e ouvem bandas, participam de teatros, concertos e shows de todo tipo. Os seus bancos ouvem juras de amor e lamentos de despedida. Lá, o engraxate trabalha, o vendedor de bilhetes oferece a fortuna e a cigana devolve a esperança ao solitário, desempregados colecionam recortes de anúncios e os pombos distraem crianças, enquanto as comadres espalham as “últimas”. Mas é também na praça que o povo chora a dor pungente da sua cidade. Enfim, ela é o palco e o coreto mais democrático, espaço público onde todos expõem a alma, proclamam, reclamam e se defendem. Nem um pouco diferente é a Praça da Sé de São Paulo, coração e alma da maior e mais complexa metrópole brasileira, sob a sombra serena da catedral, uma testemunha silenciosa de muitos fatos importantes para o Brasil.
A Praça da Sé viu a vila se transformar em cidade; depois encheu-se de carroças, que se transformaram em bondes para, mais tarde, modificar-se em barulhentos automóveis. Trólebus e ônibus aí despejavam barões do café, milhares de migrantes e fiéis em busca de remédio para males do corpo e do espírito. Depois, a praça conquistou espaços para o metrô, que não tardaria a brotar sob mantos de água, alegria para dezenas de jovens sem família e sem futuro. As escadarias da Sé abrigaram comícios, manifestações ecumênicas e grandes corais; ouviram a cavalaria perseguindo estudantes, viram o fim da ditadura, festejaram vitórias esportivas, gestaram greves, proclamaram direitos.
Mas a praça ficou pequena demais para alguns eventos nacionais, que passaram a se abrigar em outros endereços. No entanto, quando o coração de São Paulo bate mais forte, é para a Praça da Sé que todos acorrem. Outras situações acontecem por lá, às vezes insignificantes para a multidão, mas vitais para os que a transformaram em lar; para os que por lá transitam apressados, desconfiados; para os que se divertem ou para os que choram as mágoas de uma vida amarga. Pregadores ambulantes anunciam a salvação; profetas ameaçam com desventuras e catástrofes; mendigos e crianças mal-amadas dormem pelos cantos, à luz do dia; ambulantes oferecem bugigangas de procedência e qualidade duvidosas; sem-teto, administradores e comerciantes, trabalhadores e desempregados, profissionais liberais e estudantes, todos se cruzam democraticamente. Capas de revistas abarrotam as bancas, oferecendo imagens do papa ao lado de musas eróticas, quando não pornográficas. Ao som de um carrilhão altissonante, a catedral se abre para eventos religiosos, procissões e protestos, vias-sacras de quaresma, manifestações de dor pelas vítimas de violência. Carregadores de anúncios e de protesto fazem ponto sob as palmeiras altíssimas. Turistas e forasteiros são continuamente despejados das entranhas escuras do metrô, o mais freqüentado e importante cruzamento subterrâneo da cidade. À sua saída, a estátua viva tenta ganhar seu dinheirinho, enquanto trombadinhas e trombadões surrupiam incautos e driblam a polícia, dia e noite, porque a praça não dorme. Este circo, tão esdrúxulo quanto fascinante, desenrola-se diariamente sob o olhar benevolente e plácido dos anjos e dos santos de pedra da catedral... quais serão seus pensamentos?
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