Revista "MUNDO e MISSÃO"
Crianças
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por Edson Martins Na última campanha eleitoral, a questão educacional foi bastante explorada e com toda a razão. Por mais que a escola tenha se popularizado e esteja atingindo, cada vez mais, populações carentes e comunidades distantes, a qualidade do ensino está muito longe do razoável. O resultado dessa situação salta aos olhos: índices crescentes de evasão, violência e insatisfação de alunos, professores, pais e sociedade. É verdade que o mundo mudou e que aquela escola tradicional em que muitos de nós fomos educados não cabe mais. É verdade que a disciplina rígida, o respeito à figura do professor e a preocupação deste em fazer com que seu aluno absorva as verdades criadas pela nossa civilização são valores obsoletos. Sem dúvida, essa escola precisava ser superada e parece que é isso mesmo o que aconteceu. Resta uma pergunta: o que ficou no seu lugar? Se "aquela" concepção de escola não tinha mais função, que outra foi instaurada para ser aceita e dialogar, de verdade, com as necessidades do nosso mundo? Avançaremos muito, quando assumirmos que ainda não sabemos responder a essa pergunta, mas temos nos comportado como aquele aluno "malandro" que não sabe direito a resposta e tenta iludir o professor com palavras bonitas que não se sustentam. Estou me referindo a muitos dos renomados educadores, instituições e institutos de educação que temos espalhados por aí. Quanta pesquisa! Quanta reflexão! Quantas publicações! Quantas teorias e termos técnicos! Quantos esquemas facilmente aplicáveis, quantas cartilhas! A verdade é que, para a imensa maioria da população, essas soluções soam como verdadeiros mistérios. As falas dos educadores mais têm parecido com as falas dos economistas de Estado, são palavras mágicas destinadas somente a iniciados. Parece também a fala de alguns médicos que não se acham no dever de traduzir ao paciente a situação real do seu corpo em linguagem mais usual e acessível, tratando o mesmo como uma máquina, dissociada do indivíduo, da vida, que é muito mais que um monte de células organizadas morrendo e se reproduzindo. Pois bem, uso os exemplos de tipos de médicos e economistas para refletir sobre parte significativa dos educadores do nosso tempo. Tenho visto muitas de suas ações, especialmente as dos renomados institutos de pesquisa e assessoria e ficado muito preocupado. Cada vez mais eles me lembram os referidos médicos e economistas com suas palavras mágicas. Não retiro aqui o valor de tais teorias. Bem sei que são fruto de pesquisas sérias, realizadas por cientistas competentes e de irrefutável valor acadêmico. O problema é que, por tantas vezes, essas teorias acabam partindo de uma escola fictícia, construída em ideologias muitas vezes mal fundamentadas e compreendidas, sejam elas de esquerda ou direita. Costumo dizer que essas pessoas não gostam da escola e digo isso com a maior tranqüilidade, uma vez que sou pesquisador e professor. Conheço muito bem as escolas e os institutos de pesquisa; as universidades e as consultorias. Esse não gostar, raramente, é consciente e, normalmente, acredita ser bem-intencionado, não cabendo, por isso, algum tipo de restrição mais severa a quem os desfruta. Mas, se por um lado, esse fato absolve seus defensores, por outro, deve relativizar a aplicação de suas idéias. Fico muito preocupado quando vejo os professores adotando essas teorias como dogmas, partindo do princípio de que elas estão absolutamente corretas. Elas são belas, bem amarradas, mas, em sua grande maioria, faltam-lhes o ar, a força da realidade do aluno e esta realidade só pode estar no cotidiano da escola. Lamentavelmente, essas teorias não são feitas no calor da vida escolar. O mesmo vale quando vejo alguns alunos e pais de alunos subservientes e passivos diante dos diretores de escola, coordenadores e professores, como se eles detivessem um conhecimento absoluto, acima de qualquer suspeita, o que não é verdade. Como vimos acima, seja na escola ou na academia, o que se passa como verdade educacional e científica não são senão saberes relativos, produzidos ao longo da história e, certamente, mutáveis. Esses saberes precisam da vida para fazer sentido, e a vida está na rua, na esquina e não fechada nos muros da escola, mas no diálogo escola-mundo. Com isso, quero dizer que se há uma forma de resgatar o papel da escola e fazer dela efetivamente significativa aos alunos e à sociedade, precisamos reinserir, urgentemente, essa escola no mundo, mas no mundo real, das esquinas, dos botecos, das igrejas, dos clubes, dos pontos de ônibus. E esse mundo é a razão de ser do conhecimento que devemos produzir. Produzi-lo para mudar o mundo de forma autônoma, a partir de homens e mulheres autônomos, livres para fazerem desse mundo, eticamente, a realidade que quiserem. Para quem pensa que tais fazeres são utópicos ou dependem de super-organizações, vai um aviso: elas estão brotando por todo o lado e partindo das comunidades e instituições organizadas. Um exemplo muito interessante é o Projeto Eremim, desenvolvido na cidade de Osasco/SP. Este projeto, que tem apoio do Sindicato dos Metalúrgicos e outras instituições da região, em menos de 5 anos de atuação, já consegue realizar seu maior objetivo: tira crianças e jovens que vivem em situação de risco social (a maioria deles está abaixo da linha da pobreza) das ruas, quando estão fora do horário escolar e os recebe em suas dependências. O espaço utilizado é de um clube que tinha parte de sua infra-estrutura ociosa durante a semana. Os educadores, em sua grande maioria, são da população local e foram formados pelo próprio Eremim. Temos aqui uma retroalimentação da formação, fortalecendo a identidade e sociabilidade local, produzindo saberes e fazeres efetivamente ligados à comunidade. Nenhum educador renomado participa do projeto. Nenhuma teoria da moda o embasa. Seu fazer está calcado na vida, no sorriso, na esperança. Hoje, com 200 alunos, o Eremim já é reconhecido pelo Unicef e tem parcerias com outras instituições, uma delas a Uni Sant'Anna, da cidade de São Paulo.
Nessa parceria, os alunos do curso de Turismo do referido centro universitário desenvolvem o Projeto Turismo na Escola com os adolescentes que estão saindo do Eremim. Nesse projeto, os jovens saem com certificado para monitoria em turismo, dentro da perspectiva de turismo social e sustentável da Uni Sant'Anna. Um turismo que defende a inclusão, partindo do conhecimento do próprio espaço. Os resultados estão sendo muito positivos e a primeira turma está se formando. Fez seu primeiro teste em novembro, num estudo do meio com as crianças menores do próprio projeto. Muitos são seus irmãos, vizinhos, primos, camaradas. Em breve, poderão fazer o mesmo com seus pais, tios, amigos, etc. Esse é apenas um dos exemplos do modo de educar do Eremim. Sua base é a interação, o diálogo, a significação para a vida e para o mundo. Essa sim é uma relação efetivamente educativa que pode e até deve ser teorizada. Se um dia houver essa necessidade, a teoria aparecerá inerente à vida, dependente dela. E os acadêmicos, especialistas e técnicos serão bem-vindos ao trabalho de compreensão e auxílio a uma escola que ama o mundo porque sabe que nasce dele e o constrói. Edson Martins é
educador, cientista social e mestrando |
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