Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

HONG KONG: três anos depois

Costanzo Donegana

Em 1997, Hong Kong deixou de ser colônia inglesa e voltou a fazer parte da República Popular da China. O que mudou na vida da cidade desde então?

Pe. Filippo Commissari, do PIME, trabalha em Hong Kong desde 1956. De passagem por São Paulo, foi entrevistado por "Mundo e Missão" sobre a situação da cidade de Hong Kong, três anos depois de sua volta para a China.

M.M.: O que mudou em Hong Kong, depois de 1997, do ponto de vista econômico?

F.C.: Desde o primeiro momento houve uma queda brusca do turismo. O crescimento de Hong Kong, nas últimas décadas, deveu-se essencialmente ao comércio e ao turismo. Foi um verdadeiro boom. Hoje, além do turismo, o comércio também está em queda. Isso é compreensível. Os turistas iam a Hong Kong em busca do que era produzido lá, pois os preços eram muito convenientes. Caindo o turismo, cai o comércio. O desemprego está aumentando a cada ano. Um outro motivo explica o desemprego. Os grandes capitalistas de Hong Kong (chineses, mas ligados às multinacionais) em lugar de investir mais dinheiro na cidade, vão para interior da China, constroem novas fábricas lá e empregam mão-de-obra local. Isso porque o custo da construção é muito mais baixo na China e os salários são um ter-ço do que os que são pagos em Hong Kong. Portanto, todas as empresas, chinesas e multinacionais, têm sua sede, seus escritórios em Hong Kong e as fábricas na China. O desemprego na ci-dade, portanto, é geral: no turismo, no comércio e na indústria. Hong Kong está deixando de ser a potência industrial que foi nas últimas décadas.

M.M.: E o que mudou do ponto de vista político?

F.C.: Politicamente, de uma ditadura inglesa passamos a uma ditadura chinesa. Antes, era uma ditadura com cara de democracia. O chefe de governo era enviado pela rainha, o governador também. Existiam as duas câmaras, mas quem mandava eram os interesses das pessoas que estavam no poder. Agora, o governador é enviado por Pequim. Os membros das câmaras são eleitos pelo povo, mas têm que ser aprovados pelo governo que aceita os que estão alinhados com ele e rejeita os outros. O verdadeiro poder está nas mãos dos comerciantes. A política já não é o socialismo. Eles continuam se chamando de socialistas e defendendo os princípios do socialismo, mas o que interessa à China, neste momento, é o sucesso econômico, custe o que custar. A política de-les é um capitalismo desenfreado. As conseqüências são: quem já é rico, torna-se mais rico; os grandes capitalistas cada vez mais ricos e a massa da população continua pobre.
Certas aldeias pobres do interior continuam como eram cem anos atrás: sem estradas, sem telefone, sem água encanada, porque o governo só se preocupa com o desenvolvimento da indústria e do que está ligado à indústria, como as estradas e as grandes cidades. Ali há um fervilhar de obras inacreditável. Nas aldeias, tudo continua como nos séculos passados. Há uma diferença enorme entre as cidades e as aldeias. Veja-se por exemplo, o controle demográfico. Na China, a população já alcançou 1,2 bilhão de habitantes. O governo então impôs a famosa lei de um filho para cada família. Onde é possível um controle, a lei é observada. Se não o for, as punições são severas. Quando os filhos ultrapassam essa quota, é preciso pagar uma série de taxas: para a escola, para sua manutenção, para tudo. Só que na região rural o governo não consegue controlar e ali o pessoal tem filhos exatamente como tinham antes. A dificuldade é que esses filhos a mais, além da quota permitida de um, não foram registrados para evitar punições por parte da polícia, de maneira que não têm documentos nem para a escola nem para o trabalho.
A política econômica adotada agora na China destrói todos os princípios do socialismo. Os grandes capitalistas, ligados às multinacionais, devem pagar fortes taxas ao governo. Feito isso, têm todas as liberdades que querem, formam uma espécie de máfia em todos os níveis.

M.M.: Há uma repressão ideológica em Hong Kong?

F.C.: Oficialmente, sim. Ninguém pode criticar os princípios socialistas, ainda que o governo os desminta com sua atuação prática. Não é permitido dizer que o governo é capitalista, ainda que o seja de fato. O governo exerce um controle geral na imprensa e esse controle está chegando a Hong Kong. Os habitantes dessa cidade, habituados à liberdade de expressão que existia quando Hong Kong era colônia inglesa, são muito sensíveis a qualquer controle sobre a liberdade de expressão. A China está indo muito devagar com a repressão em Hong Kong. Ainda temos católicos nos mais altos postos de comando. A secretária do governador é católica, o ministro das finanças também. Sempre que vai a Pequim ou Shangai assiste à missa lá; ele fala claro quando há algo em contradição com sua fé e o respeitam. Não conseguiram ainda trocar todo o pessoal em todos os níveis.
As obras sociais da Igreja em Hong Kong estão na vanguarda, são apreciadas por todos e ninguém pode dizer que ela é um obstáculo ao progresso. Tudo que se tem no campo da assistência social não se deve ao governo, mas à Igreja católica ou protestante.
Mesmo nestes últimos três anos, a Igreja fez muito no campo da assistência social, por exemplo, com os deficientes físicos e os drogados. Na China, os deficientes físicos viviam fechados em casa, amarrados a uma mesa. Agora eles descobrem que podem ser ajudados. Então convidam os nossos agentes sociais, mesmo para o interior da China, para que mostrem o que estão fazendo. Por ex., o pe. Cagnin, expert em computadores, é convidado para mostrar seus programas para oferecer trabalhos a deficientes físicos; o pe. Bonzi é convidado para dar consultorias sobre como organizar casas de assistências para deficientes. Eles vêem, apreciam e aproveitam-se dessas iniciativas.

M.M.: Há algum sinal em Hong Kong de um endurecimento no controle da situação?

F.C.: Há, sim. Começam a intervir nos meios de comunicação para reprimir a liberdade de expressão, como já vimos. Agora, estamos prevendo também uma intervenção no campo das escolas. Antes, quase toda paróquia tinha seu estabelecimento escolar, primário e secundário, financiado pelo governo. Nas horas vagas, usavam-se as dependências da escola para atividades paroquiais. O governo está dando a entender que não tem meios para continuar subvencionando as escolas e aí nossas paróquias ficariam muito prejudicadas. O governo anterior subsidiava 300 mil estudantes das escolas católicas e o novo governo, nestes três anos, continuou fazendo a mesma coisa, mas já existe um projeto para suspender essa ajuda a todas as escolas subsidiadas. A desculpa é a falta de meios por parte do governo. De fato, eles querem ter o controle sobre qualquer atividade que se exerça em Hong Kong, sobretudo no campo do ensino.

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