Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
por Alberto Garuti
Ameaças “nas entrelinhas” Mas, sabe-se que é fácil gritar com os fracos e bem mais difícil com os poderosos. Depois de 1968, outros países se apossaram da tecnologia e declararam ter construído bombas atômicas: Israel, Paquistão e Índia. Ninguém levantou a voz. Ultimamente, a Coréia do Norte que, apesar de ser um país pequeno, tem um dos exércitos mais poderosos e bem armados do mundo, fez a mesma afirmação. Até agora não foi ameaçada. Ameaças, embora por enquanto só nas entrelinhas, foram feitas apenas ao Irã que, em 2002, admitiu ter trabalhado por 18 anos para definir projetos para o desenvolvimento do urânio enriquecido e que, em novembro de 2004, declarou ter abandonado suas pesquisas nesse sentido. Mas a agência da ONU, encarregada do controle, teria declarado que não foram permitidas suficientes inspeções, a fim de que a afirmação do governo de Teerã pudesse ser averiguada. Alguns dias atrás, o presidente do Irã, Mohammad Khatami, declarou: “Nenhum governo iraniano vai renunciar aos projetos para a energia nuclear a ser usada para fins pacíficos. Damos a nossa palavra que não iremos produzir armas atômicas”. A resposta da secretária de Estado americano, Condoleeza Rice, foi que um ataque contra o Irã não estava previsto “por enquanto”. Desde a época da revolução islâmica até hoje, a população do Irã dobrou, passando de 35 para 70 milhões de habitantes e isso significa um consumo muito maior de energia. O governo, cujos únicos recursos provêm da venda para o exterior de petróleo e gás, sabe que cada barril de petróleo gasto para produzir energia, é um barril a menos vendido. Por isso, precisa urgentemente de outras fontes de energia, como a nuclear. Talvez goste também de ser tratado como outros países importantes, aos quais foi permitido ter a bomba atômica e não aceite ser ameaçado. Ter a bomba atômica seria, ao final das contas, uma questão de prestígio político e nada mais. No fundo, o Irã é um país que nunca atacou, nunca declarou guerra a ninguém. O Irã e seus problemas internos com jovens e mulheres Em 1979, o Irã se livrou da ditadura do Xá Reza Pahlevi, mas o governo instalado pela revolução não caminhou em direção de uma maior democratização do país. Se metade da população nasceu depois da revolução, quer dizer que o Irã tem 35 milhões de jovens abaixo dos 25 anos. O descontentamento circula livremente entre eles, em primeiro lugar pela alta taxa de desemprego, que beira o 20%, motivo pelo qual mais de 200 mil deles, em cada ano, são obrigados a emigrar para trabalho, e também pela insatisfação com o regime, que impede uma série de liberdades que os jovens desfrutam em outros países, especialmente ocidentais. Foi pelo voto dos jovens, em grande parte, que em 1997 foi eleito presidente Khatami, que prometia modernizar o país. Algo de positivo foi feito no campo econômico, sob sua presidência, assim ele foi reeleito em 2001. Quanto à uma maior liberalização, em sentido amplo, não se sabe se Khatami está impedido ou não quer fazer nada. Parece ter-se iniciado, ultimamente, um período de repressão maior por parte das autoridades ao lado do presidente. No ano passado, o Conselho dos Guardiães vetou mais de 2000 candidatos ao Parlamento, pois eles foram considerados excessivamente reformistas. Por causa de medidas como essa, a maioria dos membros do Parlamento acabou sendo formada por conservadores. A contestação ao regime muito pouco liberal é assumida agora pelos estudantes, que já recorreram, embora sem êxito, ao representante da União Européia, Solana, e a Kofi Annan, secretário-geral da ONU, para que interviessem junto ao governo do Irã, para conseguir maior democratização e mais respeito aos direitos humanos. O que até agora os estudantes conseguiram foi uma forte repressão a toda manifestação e a prisão dos líderes desses movimentos. Outra parcela da população está mostrando sua insatisfação contra as orientações do regime e a total falta de liberdades democráticas: são as mulheres. Desde 1962, as iranianas podem votar e ser votadas. No parlamento, em 290 cadeiras, 11 são de mulheres. Elas se distinguiram em sua luta, embora sem sucesso, pela equiparação dos direitos entre homem e mulher e pela abolição da pena de morte por lapidação, aplicada às mulheres acusadas de adultério. Sem dúvida, a atividade das mulheres na vida cultural e social do Irã tomou a direção de luta para uma verdadeira renovação. Lembramos o prêmio Nobel da paz, atribuído à iraniana Shirin Ebadi. Mas esses anseios de renovação enfrentam a resistência da classe religiosa que quer a mulher fechada dentro da estrutura da família. Descontentamento dos jovens e das mulheres, alimentados por uma situação econômica que não deslancha, são motivações suficientes para, em médio ou longo prazo, desestabilizar o regime conservador e fundamentalista dos aiatolás. E onde se encaixam as ameaças de Bush? Infelizmente, se fossem levadas a termo, fariam desaparecer tais divergências e uniriam todos esses setores da sociedade em volta do regime, em defesa do inimigo comum que vem de fora. Começaria uma nova história, da qual ninguém consegue prever-lhe o desfecho. O Irã pode não ser um país com particular pendor para as guerras, mas é profundamente nacionalista, um nacionalismo baseado em uma cultura de vários milênios. Nacionalismo e fundamentalismo religioso costumam produzir uma mistura altamente explosiva. O sistema político iraniano O poder político no Irã é complexo e só tem a aparência de democracia. Nele encontramos autoridades eleitas e outras nomeadas. Eis as principais: Autoridades eleitas: Presidente: É a segunda pessoa mais importante do País. Permanece no cargo quatro anos e pode ser reeleito uma vez só. É o chefe do Governo e a segunda autoridade do estado. Conselho dos Ministros: os ministros são escolhidos pelo Presidente e aprovados pelo Parlamento, que pode julgá-los e, eventualmente, acusá-los. Parlamento: 290 membros, eleitos para um mandato de quatro anos. Pode apresentar e aprovar novas leis, que devem, contudo, ser aprovadas pelo Conselho dos Guardiães. Julga os ministros e o Presidente. Assembléia dos Líderes: composta por 86 membros, que pertencem todos à classe dos religiosos. A Assembléia tem a tarefa de nomear o Chefe Supremo, julgá-lo e destituí-lo se achar que não cumpre os deveres de seu cargo. Autoridades não eleitas: Chefe Supremo: foi idéia do aiatolá Khomeini que um chefe supremo religioso estivesse à frente da estrutura política do País. Ele nomeia o chefe do Poder Judiciário, os seis membros religiosos do Conselho dos Guardiães, os comandantes das Forças Armadas, os guias da oração da sexta-feira e o diretor da TV e da Rádio. Conselho dos Guardiães: É a instituição mais poderosa do Irã, formada por seis teólogos, nomeados pelo Chefe Supremo, e seis juristas, nomeados pelo poder judiciário, aprovados pelo Parlamento. Sua tarefa é aprovar os projetos de lei propostos pelo Parlamento, verificando sua conformidade à Constituição e à Lei Islâmica. Forças Armadas formadas pela Guarda Revolucionária e pelo Exército. A Guarda Revolucionária deve intervir contra qualquer movimento que pode colocar em risco as instituições. OS CRISTÃOS NO IRÃ A comunidade cristã no Irã é formada por uma exígua minoria: 0,1% da população. Deste grupo, 180 mil são ortodoxos e 16 mil, católicos. A constituição do Irã reconhece aos cristãos o direito de gerir os próprios problemas comunitários. Isto significa que eles têm certa liberdade no ensino religioso e nos contratos jurídicos privados (matrimônio, divórcio, herança), com a condição de respeitar as normas impostas pela lei islâmica, como a proibição de bebidas alcoólicas e o dever, para as mulheres, de cobrir a cabeça. O Islã proíbe a conversão de seus fiéis ao cristianismo. Dom Ignácio Bedini, salesiano, é o patriarca dos católicos latinos. “Meus fiéis são uma minoria ínfima, são sobretudo estrangeiros que vêm a trabalho”. Dom Ângelo Mottola, núncio apostólico em Teerã, afirmou: “O povo vê com simpatia a Igreja católica e quer receber uma visita do Papa. Também a comunidade muçulmana o espera, porque o Papa se revelou um grande defensor da paz mundial e da justiça social”. Pe. Tom Lawlor, dominicano que vive no Irã há 30 anos, titular da igreja de Santo Abraão, justifica: ”Abraão é o pai da fé judaica, islamita e cristã. A paróquia de Santo Abraão é muito freqüentada pelos jovens. Eles são curiosos. Se são islâmicos, não lhes é permitido assistir à Missa. Podem, porém, vir para estudar e consultar a nossa biblioteca. O governo consente que se conheçam religiões diferentes. A juventude respeita as pessoas de Jesus e Maria”. O ISLAMISMO NO IRÃ No Irã, o islamismo segue a corrente xiita, que reconhece Ali, genro do profeta Maomé, pois se casou com a filha dele, Fátima. Ali é tão venerado quanto Maomé, o fundador do Islã. Os xiitas dão muita importância à figura do Imã, chefe supremo da comunidade islâmica com função também de guia religioso. O Imã seria o sucessor de Ali, que teria recebido de Deus (Alá) uma particular iluminação para seu ministério político e religioso. A Ali sucederam onze imãs, todos mortos de morte violenta. O último Imã seria o “Imã oculto” ou escondido, que Alá teria protegido para que não encontrasse a mesma morte violenta dos seus predecessores. Sua volta está
sendo esperada, no fim dos tempos, junto com Jesus que, de acordo com
o Alcorão, não teria morrido na cruz, mas estaria vivo até
hoje. A outra corrente islâmica é a sunita, a mais numerosa
(90% de todos os muçulmanos), mas que não está presente
no Irã. Os sunitas são assim chamados porque seguem, além
do Alcorão, a suna, isto é, as orientações
do profeta que se encontram na tradição oral da revelação,
e a opinião da comunidade quando há concordância em
determinado ponto. Por isso, os sunitas são chamados gente da suna
e da comunidade. |
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