Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

 

Os números mais recentes começam a indicar uma pequena retomada
do crescimento econômico, mas o problema está no descrédito das
instituições políticas

por Patrizia Bergamaschi

omingo de eleições na Argentina. No centro de Buenos Aires, há um clima diferente: policiais por todos os lados vigiam o local onde serão apuradas as urnas, no final do dia. Não longe dali, numa igreja católica freqüentada pela classe média, a missa termina com uma oração pela pátria, repetida todas as semanas, pedindo paz e um destino de justiça. Na rua, os transeuntes parecem tranqüilos (ou desinteressados?), mas o rádio adverte que, à noite, haverá manifestações diante da Casa Rosada, sede do governo, e no centro da cidade.

Os argentinos que encontramos nesse dia tinham opiniões bem diversas, perguntavam de "don Lula", mas não escondiam o desconforto diante da possibilidade de um segundo turno que, de fato, se confirmou. Todos queriam falar de política, mas para criticá-la, para expressar a perplexidade diante do fato de um partido apresentar mais de um candidato, de Menem, confirmado em sua corrupção, voltar com tanta força, de perceber o povo argentino totalmente desconfiado e descrente de que algo possa mudar.

Inquieta-lhes que, após as últimas experiências, o país esteja, além de mais empobrecido (e os números falam em 50% da população), também, muito dividido, o que, em outras palavras, significaria indecisão e indiferença diante da mesmice de corrupção e favorecimentos. Falta dinheiro, mas falta, sobretudo, confiança. Isso não é possível emprestar, ainda que muitos digam que o Brasil é a esperança de um novo estilo de governo sul-americano.

Reconstruir e crescer

A Buenos Aires, centro de turismo e, durante muito tempo, cidade considerada de padrão europeu, não só por suas características urbanísticas, mas principalmente, pelo padrão de vida e de cultura, os turistas começam a voltar. Todavia, o que encontram é diferente do que havia alguns anos atrás. Se, de um lado, surpreende a existência de bairros novos e elegantes, com um crescimento imobiliário de altíssimo nível e custo, de outro, percebe-se a perda da qualidade, aliada à falta de manutenção de edifícios, hotéis e restaurantes.


Ao lado, menino pedindo esmola numa rua movimentada do centro comercial. Ficou ali o dia inteiro tocando sanfona.

No centro comercial, mulheres e crianças pedem esmola, jovens entregam volantes, artistas de todos os tipos e qualidade improvisam seu espetáculo, na esperança de uma moeda. Nada de diferente, senão houvesse tantos idosos... e não soubéssemos que a taxa de desemprego ainda continua nos 18%.

Pudemos também visitar o noroeste do país, onde os efeitos do empobrecimento deixam marcas mais sensíveis: casas em condições deploráveis, não porque são pobres, mas porque parecem abandonadas à própria sorte, lutando contra o tempo; carros carcomidos; construções que não terminam nunca; muita gente nas ruas, sem fazer nada.

Entretanto, o noroeste argentino é rico em plantações de cana-de-açúcar e de limões, favorecido por um clima adequado a essa cultura. Um novo ritmo está querendo se instalar na economia, mas aí, por exemplo, a exportação depende da capacidade de atender a todas as exigências do mercado estrangeiro, implacável quanto às questões sanitárias.

E os jovens?

Entrevistando uma professora da Patagônia Austral, extremo sul do país, Patrícia Zapata, deparamos com a confirmação daquilo que parecia tão evidente nas conversas com os jovens e a população. Para a docente, "a juventude, em sua maioria, é um reflexo do que recebe do mundo adulto que, por sua vez, está descrente. Os jovens não têm um modelo, um caminho a seguir e, o pior, estão sem confiança no futuro".

Para muitas crianças, a escola é a garantia de, ao menos, uma refeição por dia, mas multiplicam-se os problemas de todos os tipos. Em muitas universidades públicas, falta até papel para imprimir documentos e são os diretores e os docentes que acabam fornecendo disquetes, tinta de impressora e outros materiais, tirando de seu próprio bolso, já bastante penalizado. Aliás, reclama justamente o professorado do aumento de trabalho e responsabilidades e dos baixos salários e da instabilidade no emprego.


Cartaz de rua, afixado antes das eleições: urgente desejo de mudança

"Nessas condições", continua a professora Zapata, "dificilmente formaremos uma massa crítica entre adolescentes e jovens. Não que ela não exista, mas é pequena e pouco influenciará as classes dirigentes e privilegiadas de um país que está aprofundando a divisão entre ricos e pobres".

Entre jovens universitários, as opiniões variam entre esperança e desconfiança. Para Diego Castilo, 23 anos, é evidente o desejo de mudança no pensamento argentino, pois "estão se acabando os dias de corrupção, favorecidos por governos paternalistas, preocupados apenas com interesses pessoais".

Mas, para Antonio Lanaca, 22 anos, os argentinos sentem um "desconcerto diante dessa situação irracional que coloca Menem como candidato favorito, visto que ele, praticamente, destruiu o país". Também Alejo, 32 anos, acredita que as coisas só mudarão, "se todos os membros do atual e dos antigos governos deixarem a política". E fala do presente como um "poço escuro" do qual é preciso sair com urgência.

Esperança incerta

De uma forma geral, conversando com educadores e jovens, é possível depreender que, para muitos deles, "é difícil ter esperança no resultado do segundo turno, porque se vislumbra apenas um claro reflexo da fragmentação do país que não encontra líderes políticos que possam resgatar um projeto nacional coerente e que reverta a enorme desigualdade do modelo neoliberal, que favoreceu pessoas que continuam querendo se manter no poder", conclui a professora Zapata.

Talvez um dos fatores que esteja atingindo profundamente o pensamento argentino seja exatamente a humilhação sentida por um empobrecimento que não se justificaria num país tão rico. Na terra das eloqüentes "Mães da Praça de Maio", muitas vozes se calaram diante dos desmandos e absurdos dos últimos governos, comprometidos com a corrupção, distantes dos reais interesses do povo. "Acredito na esperança", declara um jovem de 25 anos.

"Esta eleição é apenas mais um fato na longa história que todos os argentinos devemos escrever de próprio punho. Não vamos nos deixar vencer por essa derrota eleitoral. Não há melhor oponente do que nossa própria consciência que já se cansou das mentiras".

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar