Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

 

Alessandro Armato

Entrevista com Dom Rodríguez Maradiaga

scar Rodríguez Maradiaga é um cardeal fora dos esquemas. Salesiano, fala cinco línguas, tem brevê de aviação, toca sax e dirige o coro. Mas é também um economista sagaz, um educador de notável experiência e um dos homens mais competentes e sensíveis aos problemas da América Latina. Arcebispo de Tegucigalpa e presidente do Departamento de Justiça e Solidariedade da Conferência episcopal latino-americana (Celam), dom Rodríguez Maradiaga foi colocado também na lista dos “papáveis” durante o conclave que elegeu papa o cardeal Ratzinger. Ele sempre se esquivou desta gentileza, mas continua a ser, ontem como hoje, um personagem-símbolo em toda a América Latina. Em Honduras, seu país natal, torcem por ele como se fosse um astro. Em uma ocasião, ofereceram-lhe o cargo de chefe de polícia. Evidentemente, recusou o convite.

Foi entrevistado, em Roma, por Mondo e Missione:

- Nos últimos anos, emergiram, na América Latina, correntes anti-liberais, anti-imperialistas e anti-americanas...

Existe o risco de uma nova guerra fria, de novo confronto ideológico, entre países que se proclamam anti-imperialistas, como Cuba, Venezuela ou Bolívia, e países fiéis a Washington, como Chile, Paraguai, El Salvador ou Colômbia?

– É claro que está acontecendo uma mudança no continente. Diz-se que é para a esquerda, mas o conceito de esquerda, hoje, é muito relativo. À esquerda em relação a quê? Há um tempo, opunham-se capitalismo e comunismo. Hoje, o comunismo já se foi. O que existe é um grande débito social e é exatamente isto que faz com que nosso povo vire à esquerda. Fico muito triste pelo fato de que o cidadão médio latino-americano não vota.

Ele se desiludiu e não vai às urnas. Perdeu a esperança de conseguir as mudanças almejadas. Elas jamais acontecem. Por isso, assistimos ao nascimento de pseudo-messias. Na Venezuela, por exemplo, isso é muito evidente. Quando todos os países viviam sob a ditadura militar, a Venezuela era uma ilha de democracia. Converteu-se em um desastre quando os políticos destruíram os partidos, devido à corrupção. Na Venezuela, os partidos foram mortos por implosão, não por explosão.

A população ficou à mercê da oferta que vinha. E que oferta era essa? Uma espécie de Messias. Agora, começa-se a perceber que tal messias se assemelha, cada vez mais, a um ditador. Os políticos deverão refletir sobre o fato de que não existe verdadeira preocupação pelo bem comum. Permanecemos atolados na realidade de sempre e, talvez, poderemos voltar de novo a uma espécie de guerra fria.

O senhor acha que a integração latino-americana é o melhor caminho para vencer a pobreza?

– Sou fã da integração. Estou convencido de que o futuro da América Latina passa pela integração. Minha frustração, porém, é que este caminho está moroso demais. Vejamos o caso da América Central. Nascemos como federação; todavia, depois de poucos anos, emergiram nacionalismos estúpidos, que não conduziram a outra coisa que o empobrecimento. Hoje, se a América Central não se integrar, não vai sair nunca da miséria em que se encontra.

O problema é que falta consciência cívica e política aos cidadãos. Os governantes demagógicos, quando não conseguem mais administrar o próprio país, criam freqüentemente inúteis conflitos de fronteiras com países vizinhos. Para cair na graça do povo, levantam a bandeira do nacionalismo, da defesa da pátria, das fronteiras... Hoje é assim, ainda. Na minha opinião, a Igreja deve trabalhar fortemente no desenvolvimento de uma cultura cívica, de uma cultura pela cidadania, pela participação política e pela integração.

Qual deve ser o caminho: o Mercosul ou qualquer outro?

– O Mercosul não atravessa um bom momento. A Europa começou pela unificação do mercado para chegar a uma unidade política. Creio que esta poderia ser uma possível solução. Primeiramente, porém, é preciso criar e reforçar uma cultura diferente. Não é possível haver democracia sem democratas. A gente não nasce democrata, torna-se democrata.

A integração ainda está muito longe de ser alcançada. Bolívia, Chile e Peru, por exemplo, continuam divididos por um estúpido conflito de fronteiras quando, sem renunciar à assim chamada soberania, poderiam fazer pactos que permitissem obter, para a Bolívia, uma saída para o mar. Por que não? É incrível que ainda persista esse impasse retrógrado.

O que acha da possibilidade do acordo de Livre Comércio das Américas (Alca) e do pan-americanismo como alternativas a uma integração americana?

– Estas iniciativas são frágeis porque estão distantes do povo. Vejamos a Organização dos Estados Americanos, a OEA. O que é? Um organismo burocrático, que não funciona, que está em Washington e que os Estados Unidos controlam completamente. Não funciona, como não funciona a Alca, devido aos subsídios que os Estados Unidos continuam a dar a seus agricultores.

Quais são, a seu ver, as causas das escandalosas desigualdades presentes no continente latino-americano? E que responsabilidade tem a Igreja católica nisso tudo?

– Em nosso continente, aumentam as desigualdades porque falta uma real “evangelização” da política e do social. A partir do século 19, a Igreja viu-se à frente de enormes dificuldades. As guerras de independência contra a Espanha inspiraram-se nos ideais da Revolução francesa. Naquela época, a tendência era considerar a fé com desconfiança, quando não com oposição explícita. A idéia dos patriotas liberais era que o sacerdote deveria fechar-se na sacristia e não se intrometer nas esferas sociais e políticas.

Por isso, não houve transmissão de valores evangélicos no âmbito político e faltou justiça social. No início, eram os encomederos (colonos a quem se confiava o cuidado dos indígenas durante o período colonial) a oprimir os nativos. Após a Independência e até o início do século 20, grandes latifundiários mantinham, na América Central, camponeses em estado de autêntica escravidão. Algumas propriedades cunhavam sua própria moeda e os lavradores eram obrigados a comprar nos armazéns do próprio patrão.

Algumas revoltas sociais se originaram como produtos da exasperação e do cansaço das populações. É por isso que, após a Conferência do episcopado latino-americano de Medellín, que colocou em primeiro plano a opção preferencial pelos pobres, a Teologia da Libertação tomou forma e amadureceu. Foi como um respiro de alívio diante daquele tipo de injustiças sociais.

O que sobrou, hoje, da experiência da Teologia da Libertação?

– Apareceram várias correntes na Teologia da Libertação. Uma, a que adotava a análise marxista da realidade como instrumento de trabalho, revelou-se ser um erro que levou morte e tristeza a nossos povos. Mas nem toda Teologia da Libertação faliu, como alguns insinuam.

O próprio magistério eclesiástico evidencia a imensa riqueza desta teologia:

- a proximidade ao povo, as comunidades eclesiais de base...

Atualmente, a Teologia da Libertação é uma realidade que não leva nem à violência nem a um empenho político equivocado, mas à busca da justiça social e de um desenvolvimento harmônico. Nesse ínterim, desenvolveu-se também uma teologia indígena. A América Latina tem, é verdade, enorme dívida para com as populações nativas.

E tal teologia indígena tende a valorizar a cultura e as tradições de sua gente. Os missionários fazem enormes esforços neste sentido. Aí também há idéias equivocadas, admito, mas em todas as iniciativas existem sempre caminhos diversos: algumas ações permanecem e outras se revelam como falsas.

O senhor se refere ao risco de uma radicalização do discurso étnico-racial?

– Sim! Por isso, penso que seja oportuno ao magistério da Igreja acompanhá-la de perto, para corrigir possíveis equívocos e reforçar todos os seus aspectos positivos.

No próximo ano, acontecerá no Brasil a 5a Conferência do episcopado latino-americano. Quais serão os desafios?

– Devemos buscar um novo estilo pastoral e o estamos encontrando na pastoral bíblica. No mundo católico não há suficiente estudo e aproximação da Bíblia. Por isso, muitos católicos abandonaram a Igreja e se encaminharam a uma das tantas seitas fundamentalistas, difundidas no continente. Nossa preocupação é a de desenvolver uma pastoral bíblica mais incisiva e que coloque nossos povos em maior contato com a realidade. A lectio divina, por exemplo, está se revelando uma riqueza enorme. O nosso povo acolhe a palavra de Deus com grande alegria. No Celam surgiu um centro de pastoral bíblica que dá ótimos resultados. Acredito que, a partir dele, poderão nascer novos caminhos pastorais.

E na esfera econômica e política?

– Como presidente do Departamento de Justiça e Solidariedade do Celam, estou absolutamente convencido de que a evangelização da política e dos políticos é uma prioridade. As mudanças não podem vir através da violência ou do populismo. Devem surgir no respeito à democracia. A doutrina social da Igreja deve conseguir penetrar também no campo político e entre os políticos. E freqüentemente isso os incomoda. Porque muitos deles transformaram a política em indústria.

Uma indústria para o enriquecimento pessoal ou de certos grupos de poder. Qualquer um que visita a América Latina percebe logo que esta é uma terra rica. Os países são ricos, mas empobrecidos. Empobrecidos devido à corrupção política. Depois das ditaduras militares, os civis voltaram ao poder, mas, infelizmente, retornaram com a velha idéia de enriquecimento rápido. Assim, não é possível ir adiante. É preciso pensar no bem comum e, para tanto, estabelecer prioridades.

Em quase todos os nossos países, depois da aplicação dos conselhos de Washington em âmbito econômico, nos anos 90, as finanças foram sanadas e os índices macroeconômicos, notadamente melhorados, mas cresceu a pobreza. Isso significa que alguma coisa não funciona. Não basta a macroeconomia. É preciso se preocupar com o bem comum. E isto é o que falta.

Para os neoliberais, a corrupção política generalizada na América Latina é uma das razões para deixar o Estado de fora e, assim, abrir um campo para a livre concorrência... Concorda?

– O Estado continua a ter uma função importante. A de equilibrar a voracidade das grandes multinacionais que, com suas fusões e aquisições, tendem a estrangular as pequenas e médias empresas. O Estado deve garantir a manutenção dessas indústrias e ajudar a criar uma classe média que tenha certo poder de compra e relativo bem-estar econômico.


Presidente Evo Morales

Não podemos imaginar que todos possam ficar à mercê das grandes organizações econômicas, ao passo que, por outro lado, existe apenas um povo empobrecido. Este é um modelo desequilibrado. A função do Estado não deve ser simplesmente a de se converter em guardião dos interesses de multinacionais, como sonham alguns neoliberais.

Não. Sua tarefa é a de continuar a luta pelo bem comum e, especialmente, de lutar pelos menos afortunados. Neste aspecto há um extenso caminho a ser percorrido.

Mas hoje os capitais fogem para países onde o trabalho custa menos, é menos protegido e onde existem condições fiscais mais subornáveis...

– Tanto os paraísos sociais quanto os fiscais são uma estratégia para se ocultar a preocupação autêntica pelos direitos humanos. Vejo uma sociedade esquizofrênica que, de um lado, defende os direitos humanos e, de outro, viola-os de modo descarado. Penso, concretamente, nas organizações internacionais, especialmente na ONU, que nasceu para prevenir guerras e para que fossem respeitados os direitos humanos, mas que é incapaz de acabar com um conflito inútil e equivocado como o no Iraque.


Presidente Hugo Chávez

E, em segundo lugar, pergunto:

- por que existem diversos parâmetros para os direitos humanos?

Por que o mundo desenvolvido procura sempre mais a China e a Índia, onde persistem formas de exploração no limite da escravidão? Produzir onde há mão-de-obra barata, como nas maquilas da América Central, significa espoliar impunemente o pobre. Portanto, a miséria é algo que convém ao mundo desenvolvido! Até os objetivos do milênio são contraditórios. Como é possível reduzir a pobreza pela metade quando se quer continuar a roubar os pobres, sem lutar para que haja mais democracia e justiça?

O senhor propõe a substituição da economia de mercado por uma economia social de mercado. O que isso significa, na prática?

– Trata-se de chamar a atenção para o bem comum. O Estado não deve se preocupar apenas em fazer leis que protejam as companhias multinacionais. Vamos a um exemplo. Por que há, hoje, tanta preocupação com a propriedade intelectual? Parece-me justo defender um autor que escreve um livro. Mas o problema não está aqui. Ele está na capacidade que as grandes empresas têm de garantir todos os privilégios.

Quando alguém, por exemplo, examina a quantidade de patentes que a IBM encampa, questiona-se se, de fato, tal atitude visa o progresso da informática. Mas não é assim. A realidade é que hoje se garantem direitos legais para tudo. É possível garantir patentes sobre animais, vegetais e até sobre clones. Neste sistema, a que coisa se reduzirá a função do Estado, a não ser para a defesa dos direitos legais das multinacionais?

Se as patentes de alguns medicamentos, produzidos na Índia, são propriedade de multinacional farmacêutica estrangeira, eles não podem ser utilizados na própria Índia sem pagar os relativos royalties. Tudo isso é produto de uma mentalidade materialista que menospreza o homem.

A sociedade está se desumanizando, materializando-se e, assim, é destinada a se tornar vítima dos grandes ídolos de sempre:

- o poder, o prazer e o dinheiro.

É preciso recuperar toda a dimensão social da economia. Infelizmente, estamos nos esquecendo disto.

Como é possível lutar contra um sistema que reduz tudo ao útil, onde cada coisa esconde segundas intenções de tipo econômico, onde se perde o sentido da gratuidade?

– Para mim, a primeira encíclica de Bento XVI colocou o dedo na ferida. Quem é cristão, se não alguém que acredita no amor? Quando experimentamos a dimensão do amor e a comparamos com a dimensão do dinheiro, concluímos que estamos frente a dois campos completamente diferentes e opostos. O Evangelho é o caminho de saída desta situação. Por quê? Em primeiro lugar, porque fala da liberdade, exatamente o que nosso sistema está reduzindo ao mínimo. Quando, no Equador, existiam tribos que reduziam artificialmente o crânio, dizia-se que eles eram bárbaros.

Mas hoje o sistema global faz a mesma coisa. Só que está reduzindo os cérebros, restringindo a capacidade de pensar. Os indivíduos transformam-se em consumidores passivos que não refletem mais. Freqüentemente, as mensagens dos arrojados meios de comunicação contribuem para o embrutecimento da sociedade. Os jovens correm esse risco. Isto é o que a sociedade de consumo produz. Embrutecimento, redução de cabeças, redução de cérebros. Não sobram mais cérebros para pensar, abrutalhados pelo consumismo, pela droga, pelo sexo...

Temos uma sociedade que vive completamente em bandos, sem liberdade própria. O valor da liberdade inserida no cristianismo, e a libertação de todas estas escravidões, promovida por Cristo, são mais que necessárias nos dias de hoje. Em Honduras, existem ainda muitas comunidades que vivem como se estivessem no século 19. Apesar disso, seus membros são muito mais livres do que muitos habitantes das atuais cidades. Porque vivem de maneira simples e provam a alegria, apesar de viver na pobreza. Curtem os campos, os ares, a amizade, a família, o afeto.

Coisas e sentimentos que se perdem nas grandes cidades, inclusive nas cidades latino-americanas, onde a família já está em crise ou onde não sobra tempo para os relacionamentos. Estamos nos tornando bárbaros, no pior sentido da palavra, e, para cairmos fora disso, é preciso empreender todo um caminho de evangelização.

Em anos anteriores, o senhor lutou pelo cancelamento das dívidas dos países em desenvolvimento. Hoje se fala muito menos deste assunto. O problema persiste ou não?

– Na minha opinião, o problema ainda existe. É o problema de um sistema que, em vez de ajudar no desenvolvimento, prefere conceder empréstimos. Por quê? Porque o auxílio ao desenvolvimento conduz à dimensão da gratuidade e a preocupar-se para que o outro também cresça. Ao passo que o empréstimo leva consigo a idéia de “posse”, que se manifesta na contínua cobrança de juros.


Os venezuelanos também perderam a esperança de conseguir as mudanças almejadas

Os organismos internacionais de financiamento, que foram criados para a reconstrução e o desenvolvimento, converteram-se em bancos comerciais para cobrar juros. Um segundo problema é que, com o pagamento de juros, estamos perpetuando uma situação de miséria. Se meu país, ao invés de pagar 400 milhões de dólares de juros anuais, pudesse utilizar aquele dinheiro para o desenvolvimento, não teríamos mais necessidade de empréstimos do exterior.

Outra coisa: - o auxílio ao desenvolvimento hoje foi drasticamente diminuído.

O compromisso, assumido pelas nações desenvolvidas, de conceder 0,7% do Produto Interno Líquido para projetos de cooperação não está sendo respeitado. Apenas os países escandinavos e a Holanda estão mantendo essa cota de ajuda. A ajuda dos Estados Unidos não chega a 0,2% e a maioria do auxílio que eles dão, é endereçada a Israel para a compra de armas.

Maquila, a nova roupagem da injustiça na
América Central

Grígory Mendes

“Maquilas” (ou maquiladoras) são fábricas instaladas em países pobres, sobretudo na América Central, em que os componentes para a montagem da mercadoria vêm de fora, isentos de impostos de importação, e o produto final é exportado, igualmente isento de tributos de exportação (a isenção provém de negociatas com governantes locais).

Em termos humanos, trata-se de uma atividade exploradora e predatória. Exploradora porque utiliza mão-de-obra onde a pobreza e o desemprego da população são maiores e, conseqüentemente, oferecendo-lhe salário miserável, em péssimas condições de trabalho. E predatória porque, aproveitando-se de brechas nas leis locais de preservação ambiental, danificam impunemente seu meio ambiente. As maiores vítimas são mulheres, cuja mão-de-obra é mais visada para esse tipo de trabalho.

Elas se submetem a tal mecanismo massacrante por absoluta necessidade de levar à casa algo para comer. Em Honduras, após crises agrícolas e flagelos naturais nos anos 90, de cada grupo de 10 hondurenhos, 8 vivem na pobreza. Deles, 6 são indigentes. Na entrada das suas maiores cidades é possível ver os grandes galpões das zonas francas, porque o país se converteu, na última década, no paraíso das maquilas, sobretudo ligadas à área têxtil.

Seus operários são jovens entre 15 e 30 anos de idade. Deles, 93% são do sexo feminino. Muitas operárias têm sofrido abusos e maltratos, recebendo salários baixos, obrigadas a trabalhar tanto, a ponto de contrair tuberculose. Há relatos de vítimas de abusos sexuais de seus patrões. “As maquilas têm sido vistas como uma gota de água no deserto, como a única alternativa para fazer frente à difícil situação econômica e ao desemprego, porém têm causado muitos outros problemas.

Tanto que, fazendo as contas, são maiores os danos que os benefícios advindos delas, ainda que nem todos se dêem conta disso”, declarou à Revista Dimensión Misionera (ed. 291, p. 27) a coordenadora nacional do Movimento Mulheres para a Paz, Merly Eguigure. Entre os problemas causados pelas maquilas, há a migração de mão-de-obra campesina feminina que, abandonando a lavoura, acelera a falência de antigos valores do clã. Ao retornar à família, no campo, desencantadas com a experiência, muitas mulheres levam filhos, em vez de dinheiro.

Excluídas, elas assistem à desagregação da própria família. E voltam a ser vítimas de mais violência, agora familiar. Outro problema é a falta de oportunidade de desenvolvimento intelectual das operárias, porque sua jornada de trabalho pode chegar a 15 horas diárias, com intervalo de poucos minutos. A rotina bloqueia seu crescimento intelectual (em média, a escolaridade não chega a 5 anos). A Igreja vê com preocupação esse fruto amargo da globalização. As maquilas “são como pombas. Hoje estão aqui, mas, e amanhã?”, pergunta Pedro Landa, da Caritas hondurenha. De fato, logo que encontrarem condições mais favoráveis em outros países, levantarão vôo, deixando mais uma ferida social no coração de Honduras.

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