Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Américas
por Celin Camoin Nada é fácil no pequeno país caribenho, que não consegue encontrar o caminho para a estabilidade. Primeira república negra do mundo, orgulhoso de seus 200 anos de independência, o Haiti conheceu, durante sua longa história, um suceder-se de ditaduras, de golpes de Estado e de líderes políticos velhacos, habituados a utilizar a violência contra os opositores. Há mais de um ano, o país é administrado por um governo de transição, acompanhado por uma missão da ONU, mas ainda não existe clima de segurança. O Haiti continua sendo o mais miserável país do continente americano. Nas ruas da sua capital vigora a lei do mais forte. São onze da manhã. Nas calçadas em frente ao Campo de Marte, a praça central de Porto Príncipe, um jovem com a camiseta do Foyer Caritas de Saint Antoine – FCSA (Lar da Caridade de Santo Antônio) canta um rap ao microfone. O volume, altíssimo, atrai uma multidão de curiosos. À volta, há uns trinta jovens, de oito a dezoito anos. São jovens moradores de rua. Alguns dançam, outros cantam em criollo, outros devoram um sanduíche comprado no quiosque ambulante da Caritas, estacionado aí perto. “Por 2 gourdes (dez centavos de Real) é possível comprar sanduíche ou uma bebida quente. A idéia é encorajar os garotos a comprarem algo para comer ou beber, ao invés de comprarem droga. Esta forma de sensibilização é a atividade mais recente do nosso Foyer”, explica o diretor do FCSA, Jean Eddy Guillaumette. “A droga é um dos principais problemas – prossegue –. Boa parte dos jovens de rua usam-na regularmente. Uma dose custa 5 gourdes”. Segundo estimativas, 16% da droga vêm da América do Sul e, destinada aos Estados Unidos, transita pelo Haiti. Um mercado florescente, que enriquece policiais corruptos, políticos desonestos e chefes de gangues urbanas dos bairros nobres da capital, como Bel Air, Cité Soleil ou Poste Machard. “E os traficantes sem escrúpulos, também eles viciados, sabem onde encontrar estes rapazes, que se deixam induzir para fugir das dificuldades cotidianas”, afirma Guillaumette. A paróquia Santo Antônio conta com cerca de 300 rapazes de rua. A capital (com dois milhões e meio de habitantes), 3 ou 4 mil. Na rústica sede do Centro, dotada do essencial, encontramos uns doze jovens, entre 12 e 18 anos, que aí vivem, e alguns de seus amigos, jovens de rua ou ex. Um deles, Jeff, 16 anos, voltou aos pais há uns dois meses, depois de viver no Centro por dois anos. “Foi o Centro que me tirou da rua – diz –. Saí de casa com 11 anos, para morar com um grupo de amigos. Éramos cinco. Queríamos viver sozinhos, divertindo-nos”.
Jeff passou mais ou menos três anos nas ruas da caótica e poeirenta capital, palco de anos de lutas entre bandos armados: armados de poder, de droga; armados para sobreviver e para matar. “Viver assim é muito arriscado. Um dos amigos morreu sob nossas vistas. Mataram-no”, prossegue Jeff. “Muitas famílias vivem em condições precárias devido ao desemprego e à pobreza. Não podendo satisfazer aos desejos legítimos dos filhos, inúmeros pais, para acalmar suas frustrações, tornam-se agressivos. Outros não têm condições financeiras para educar os filhos. Algumas crianças, por outro lado, perderam os pais devido à violência ou às doenças. Então caem na rua, onde enfrentam problemas como a prostituição, a bandidagem, a droga”, explica o padre Le Beller, missionário francês, hoje presidente da Caritas, que ele mesmo criou. “As crianças de rua vivem em bandos. Sobrevivem de pequenos serviços, como lavar pára-brisas de carros ou engraxar sapatos, e da mendicância. Freqüentemente, colocam-se a serviço de gangues criminosas, que põem em suas mãos armas para roubar ou matar, se for o caso, em troca de qualquer recompensa”, diz o missionário e superior provincial dos Padres de Saint Jacques, no Haiti. Entre o fim de 2003 e os primeiros meses de 2004, durante o protesto que desembocou no exílio forçado do presidente Jean-Bertrand Aristide, os meninos de rua da capital foram usados sistematicamente pelo poder para ir contra as manifestações anti-governamentais. Observadores do FCSA referem-se a adolescentes armados, que atiravam sobre manifestantes. “Estes jovens mantêm uma relação ambígua com a polícia”, diz padre Le Beller. Antes da derrocada de Aristide, meninos acompanhavam a polícia durante as patrulhas. Depois, em 29 de fevereiro, dia da queda do presidente, alguns deles saquearam o comissariado e roubaram armas, munições e uniformes. A represália da polícia foi sangrenta: “Diversos adolescentes, entre 11 e 14 anos, foram assassinados na rua, enquanto dormiam”, prossegue o religioso. “Freqüentemente, jovens são arrastados, espancados e mortos sumariamente. Isso torna ainda mais difícil o trabalho de nossos animadores, que ficam cara-a-cara com jovens drogados, armados e perseguidos pela polícia”. Os animadores do Centro buscam os jovens em seus esconderijos, falam com eles, procuram sensibilizá-los sobre os problemas na rua e sobre as atividades da Caritas. Convidam os rapazes a virem às “terças-feiras quentes”, que acontecem de 15 em 15 dias. Nesse dia, ao chegar à sede da FCSA, o jovem recebe uma refeição quente, toma banho, brinca e participa de dinâmicas. “São eles que decidem entrar, ou não, no nosso centro. Mas sabem que, uma vez aí dentro, devem renunciar à droga e à criminalidade”, sublinha o fundador. Na casa, os jovens participam das despesas e da limpeza; por sua vez, o Centro providencia-lhes uma escola no bairro e lhes fornece assistência escolar. A maioria está defasada na escolaridade. Eles têm a chance de se envolverem em atividades teatrais, música, desenho, fotografia. “A vida no centro é temporária. Nosso objetivo é recriar os liames dos jovens com sua própria família. Procuramos os parentes do jovem e, quando os encontramos, fazemos também aí um trabalho de sensibilização. O importante é fazer renascer no jovem o desejo de retornar para casa e, nos familiares, o afeto pelo reencontro com o filho ou o neto”, continua Le Beller. “Nem sempre a volta para casa resolve o problema”, afirma o fundador. Assim, o FCSA tem um serviço de inserção e de formação profissional aos maiores. “Os jovens aprendem um ofício. Alguns são marceneiros; outros, mecânicos ou motoristas de táxi. Um dos nossos rapazes é, hoje, alfaiate. Vive com a esposa e a filha de três anos. Paga aluguel, mantém sua família. É, de fato, um belo exemplo de reinserção. Posso lhe garantir que não há nada mais belo do que ver um rapaz levantar-se de novo, depois de tantas dificuldades, e começar a viver”, completa Le Beller.
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