Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Liturgia

Normalmente, não há ação litúrgica sem a presença visíve1 da comunidade, uma vez que a assembléia cristã é a reunião daqueles que crêem em Cristo e foram batizados em seu nome. O Senhor Jesus está presente onde dois ou mais estão reunidos em seu nome (Mt 18,20). A assembléia cristã se situa na ordem da salvação: ao mesmo tempo visível e invisível.

Nesse sentido, constitui um “mistério”, isto é, um desígnio eterno de salvação, oculto em Deus desde toda a eternidade e manifestado, no tempo, em Jesus Cristo (Ef 1,10). Desde então, a Igreja jamais deixou de se reunir para celebrar o Mistério Pascal de Cristo (SC 6).
Analisaremos as relações entre liturgia e comunidade, respondendo, ainda que brevemente, a algumas perguntas essenciais: O que celebrar? Quem celebra? Quando celebra? Onde se celebra?

O QUE SE CELEBRA?

A liturgia celebra o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, através do qual se realizou, uma vez para sempre, a obra da nossa salvação. Este mistério, atualizado de modo particularmente pleno na celebração da Eucaristia, está igualmente presente em todas as ações litúrgicas, como nos sacramentos e sacramentais, sempre relacionados a Eucaristia, centro e cume de toda a vida cristã (SC 10). Por este motivo, a liturgia celebra com especial intensidade a presença atuante de Cristo na comunidade eclesial (SC 7).

Em relação com o Mistério Pascal de Jesus comemoramos a vida dos santos e nos recomendamos a sua intercessão, não como complemento ou acréscimo, como um culto independente, em competição ou em oposição ao culto único devido a Cristo. O culto dos santos somente tem sentido quando integrado e subordinado ao de Cristo. Ele, e somente ele, é o Sumo e Eterno Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, o único Mediador entre o Pai e a humanidade. “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).

Por Cristo, com Cristo e em Cristo sobem ao Pai nossas preces e nossos louvores, inclusive os dos santos: “Na assembléia dos santos sois glorificado, coroando seus méritos, exaltais vossos próprios dons. Nos vossos santos e santas ofereceis um exemplo para nossa vida, a comunhão que nos une, a intercessão que nos ajuda” (Prefácio dos Santos).

QUEM CELEBRA?

Liturgia e culto da Igreja; ação de Cristo continuada na comunidade eclesial. As ações litúrgicas não são, portanto, atos privados; dizem respeito a toda a comunidade e a cada um de seus membros, ainda que de modo diferente, segundo a diversidade de ordem e de funções, e da participação ativa dos fiéis (SC 26).

A liturgia tem dimensão eclesial não só porque se destina a comunidade dos fiéis, mas porque a Igreja e litúrgica por constituição íntima. A liturgia celebra o momento ritual do povo de Deus. A Igreja existe no tempo e no 1ugar onde o povo de Deus responde ao chamado do Senhor, que o convoca, e se reúne concretamente em torno do Pai, por Cristo, com Cristo e em Cristo, na unidade do Espírito Santo.

A participação na liturgia não e, pois, privilégio de alguns, mas direito e dever de todos os cristãos, fundamentalmente unidos a Cristo pelo sacerdócio batismal. Todo o povo de Deus e sacerdotal. O sacerdócio ministerial e o comum dos fiéis são explicitações do único sacerdócio de Cristo, expressando, cada qual, uma diversa relação de participação desse único sacerdócio, diversidade não apenas de grau, mas de essência, de acordo com a especificidade de cada um (LG 10).

A participação de todos na liturgia exige, pois, disposições pessoais e testemunho de vida (SC 11). Participação ativa, interna e externa (SC 19), com palavras, gestos e atitudes (SC 30), respeitando o que compete a cada um (SC 31), sem acepção de pessoas (SC 32). Em vista da harmonia nessa participação, a hierarquia presta o serviço da organização e da regulamentação da sagrada liturgia (SC 22), zelando pela sa Tradição e admitindo o legítimo progresso (SC 23), promovendo as reformas que se fizerem necessárias (SC 26).

Evidentemente, a assembléia litúrgica, em sua diversidade complexa, apresenta dualismos que devem ser explicitados e administrados:

• reunião dos que têm fé, mas simultaneamente sentem dificuldades em atuar esta fé no cotidiano;
• povo pecador em busca da santidade;
• grupo diversificado a procura da unidade;
• corpo organizado, mas aberto aos carismas do Espírito;
• assembléia que não é simples aglomerado de indivíduos, mas comunidade de pessoas livres e conscientes;
• realidade histórica, aqui e agora, mas, ao mesmo tempo, transitória, a caminho da plena realização;
• ato celebrativo e compromisso de vida, missão.

QUANDO SE CELEBRA?

A partir da celebração dominical, e posteriormente diária do Mistério de Cristo, a Igreja faz memória, no decorrer do ano, dos vários aspectos da Obra da redenção. Atualizando esses mistérios, ela franqueia aos fiéis as riquezas do poder salvador e dos méritos do Senhor Jesus, venerando de modo especial a Bem-aventurada Mãe de Deus Maria, e comemorando os mártires e os outros santos (SC 102-105).

O Ano Litúrgico se insere na experiência anual do tempo, nas várias circunstâncias de vida dos cristãos. A Igreja celebra, através do ano, os principais acontecimentos salvíficos, de sorte que cada ano proporcione a vivenda do mistério total de Cristo, ressaltando em cada festa um dos aspectos da Páscoa do Senhor. Desse modo, o tempo é santificado, tornando-se o meio da caminhada progressiva para a união definitiva da humanidade com Deus.

ONDE SE CELEBRA?

As primeiras comunidades cristãs se reuniam em casas particulares. Aos poucos, apareceram os templos. As igrejas tornam-se, enfim, um local que responde não apenas a uma necessidade concreta de reunir a comunidade, mas também sinal da presença de Deus entre os homens. Além de ser a casa da comunidade cristã, se transforma em símbolo da religiosidade de toda a humanidade, como ainda um espaço onde cada povo expressa sua dimensão artística e exprime sua cultura.

Além de suas funções práticas, o templo lembra sentimentos importantes, como o desenvolvimento do espírito de família e o aspecto místico do ser humano. Para os cristãos, de modo especial, o espaço “templo” reúne a comunidade convocada pela Palavra, acolhendo os irmãos, manifestando a organização da assembléia, facilitando a participação consciente, ativa e frutuosa de todos. Pelo anúncio e escuta da palavra, mediante gestos, orações e cantos, a comunidade toma parte na ação redentora de Cristo.

CONCLUSÃO

A celebração litúrgica atualiza a Aliança realizada por Cristo, desejada desde sempre pelo Pai e promovido permanentemente pelo Espírito Santo. As várias assembléias cultuais do Antigo Testamento prepararam a Aliança definitiva. O diálogo amoroso de Deus com a humanidade chega a plenitude em Cristo. A liturgia celebra essa plenitude e a torna presente, quando a Igreja está em oração.

Pe. Valter M. Goedert
Professor de Liturgia no ITESC
(Instituto Teológico de Santa Catarina)

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