Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja

"A América Latina constitui o espaço histórico em que se dá o encontro de três universos culturais:

- o indígena, o branco e o africano, que foram enriquecidos, posteriormente, por diversas correntes migratórias. Aí se dá, ao mesmo tempo, uma convergência de maneiras diferentes de ver o mundo, o homem e Deus, e de reagir frente a eles. Formou-se assim uma espécie de mestiçagem latino americana e, embora permaneça numa base de vivências religiosas marcadas pelo Evangelho, emergem também e se misturam cosmovisões alheias à fé cristã”.

(Puebla, 307)

EVANGELIZAÇÃO DO NOVO CONTINENTE

As missões modernas nasceram depois da descoberta da América, o “Novo Mundo”, e dos contatos que, de diferentes maneiras, aconteceram com os povos até então pouco conhecidos da África e da Ásia. Com a chegada dos primeiros conquistadores ao Novo Mundo, em 1492, desembarcavam também os missionários.

Mas a ligação “conquistadores e missionários” trouxe, para o índio, dificuldades enormes para entender e aceitar a mensagem cristã. Como entender que, ao mesmo tempo em que o conquistador lhe tomava as terras e sacrificava as pessoas, o missionário lhes anunciasse um mundo novo fundamentado no amor cristão?

FALTA DE INCULTURAÇÃO

O que mais dificultava a evangelização era a falta de uma verdadeira inculturação no mundo indígena, realidade completamente nova para os europeus. Somente no Concílio de Lima (1583) chegou-se a acenar à possibilidade de consagrar sacerdotes indígenas. O processo evangelizador do “novo continente” era comandado pelas Coroas espanhola e portuguesa que, através da concessão, pelo Papa, do direito do Padroado sobre as terras conquistadas, assumiamtambém a tarefa evangelizadora, acabando com a liberdade profética, pois a Igreja ficou sem forças para criticar o sistema injusto implantado pela Conquista.

VOZES PROFÉTICAS

Apesar desses limites, vozes corajosas anunciaram o Evangelho e denunciaram a situação de injustiça.

Lembremos alguns:

• Bartolomeu de las Casas († 1566), que assim se pronunciou diante do rei da Espanha:


Hermán Cortés: um dos conquistadores da América

 

“Os índios são nossos irmãos, pelos quais Cristo deu sua vida. Por que os perseguimos, sem que tenham merecido tal coisa, com desumana crueldade? Sejam enviados aos índios pregoeiros íntegros, cujos costumes sejam espelho de Jesus Cristo e cujas almas sejam reflexo das de Pedro e Paulo. Se for assim, estou convencido de que eles abraçarão a doutrina evangélica, pois não são ignorantes e nem bárbaros, mas de inata sinceridade, simples, modestos, mansos. Estou certo que não existe outra gente mais disposta do que eles a abraçar o Evangelho...”.

• José de Anchieta († 1597). Ele é um dos mais expressivos fundadores do catolicismo no Brasil. Em suas cartas ele fala das dificuldades que deviam superar “... Muitas vezes estamos fatigados de dores, desfalecemos no caminho... Mas nada é árduo aos que têm por fim somente a glória de Deus e a salvação das almas, pelas quais não duvidamos dar a vida”.

PAPAS TOMAM POSIÇÃO

Paulo III (1534-1549):

- defendeu os índios das Américas e condenou o comércio de pessoas negras, reivindicando sua liberdade.

Em 1537 declarou:

“Todos os povos da terra pertencem à raça humana, são iguais e não podem ser explorados e nem reduzidos à condição de escravos por outros povos”.

São Pio V (1566-1572):

- ordenou aos governadores e bispos que admitissem os indígenas aos cargos públicos e os recebessem às ordens sagradas.

A Santa Sé, vendo que os interesses das potências coloniais eram bem diferentes e que pouco estavam interessadas realmente em evangelizar, organizou as missões católicas de forma mais independente.

Surgiu assim, em Roma, em 1622, a “Congregação para a Propagação da Fé”, hoje “Congregação para a Evangelização dos Povos”, com a finalidade de:

  • Livrar os missionários de ingerências políticas;
  • Favorecer a formação de agentes de pastoral indígena (padres e catequistas);
  • Respeitar as tradições e culturas dos diversos povos.

As instruções da Santa Sé aos bispos, em 1669, diziam:

“Os missionários não usem algum meio de persuasão para induzir aqueles povos a mudar seus próprios ritos e seus costumes, desde que não sejam contrários à religião e à moral”. Isso contribuiu muito para tornar a ação missionária mais independente da política, mais universal, ecumênica e mais útil ao desenvolvimento humano dos povos.

CELEBRAÇÃO 500 ANOS

As comemorações dos 500 anos, em 1992, da “descoberta” da América não foi um acontecimento pacífico, não faltaram polêmicas. Sem renegar a história e assumindo seus erros e lições, João Paulo II, na República Dominicana, pediu perdão pelos abusos cometidos pelos conquistadores e alguns missionários.

Tomou a defesa dos povos oprimidos, das vítimas da escravidão, pedindo a seus descendentes que continuassem a defender a sua identidade. O Papa não deixou de sublinhar o papel de muitos heróicos missionários na luta contra as injustiças e na defesa dos direitos humanos dos indígenas.

SANTO DOMINGO

A Igreja de Cristo, também na América Latina, mostrou ser santa e pecadora e, para abrir novos caminhos, realizou em 1992, ano em que se celebrava os 500 anos da descoberta do Novo Continente, a IV Assembléia do Episcopado Latino Americano em Santo Domingo.

O eixo central da Assembléia foi a busca de uma Nova Evangelização, mais inculturada e preocupada com a realidade do pobre e das culturas dos oprimidos. A ação da Igreja do terceiro milênio, guiada pelo Espírito, devia se orientar decididamente para uma “inculturação libertadora”. Como aconteceu isso? Será o assunto da próxima edição.

Para Refletir

1.º Cite as luzes e as sombras desta primeira evangelização da América Latina.

2.º Qual a proposta de Santo Domingo?

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