Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja

Diversas vezes nos referimos aos francos, ao reino franco, citando o rei Carlos Magno. A união dos francos com a Igreja levou à formação de um novo poder europeu, mais tarde dividido entre França, Alemanha e Itália, sempre mais distanciado do Império do Oriente. Ao mesmo tempo, o papado adquiria um prestígio político europeu sempre maior. Os francos sentiam-se prestigiados com o apoio papal e vice-versa.

O papa Estêvão II (752-757) ficou devedor a Pepino, pai de Carlos, pelo socorro militar quando Roma foi ameaçada e concedeu-lhe o título de Patrício Romano. Em troca, recebeu grandes doações de terras, aumentando os Estados Pontifícios.


Interior da Catedral de Carlos Magno em Aquisgrana (Aachen)

O papado passa a ser visto mais como potência política do que religiosa. O bispo de Roma é o Príncipe dos Apóstolos, o Guarda das Chaves, a Porta do Céu. Como conseqüência, os candidatos ao papado podem correr o risco de ter ambições mais políticas do que espirituais.

O papa, outra vez ameaçado pelos lombardos, pede o socorro dos francos e Carlos Magno desce a Roma, manifestando o desejo de dizer a última palavra entre Roma e Constantinopla. Recompensado, no Natal do ano 800, após receber as chaves do Santo Sepulcro, o papa Leão III o coroa Imperador dos Romanos. Após as aclamações do povo, o papa se prostra e beija os pés do novo Imperador.

Para Carlos Magno, era a coroação de seu trabalho de pacificação do reino franco, da derrota dos saxões e lombardos, da consolidação das fronteiras.

Todos estavam sujeitos à sua autoridade e deviam, por força, pertencer à Igreja católica, conforme estabelecia a Capitular de 779: o batismo ou a morte. Rejeitando o batismo, em 782, 4500 saxões são decapitados em Verdun.

Do ponto de vista da Igreja, o papa protegia o rei e o rei garantia o papa.

A missão de reforma religiosa passa à esfera real e Carlos Magno a enfrenta com o máximo zelo e vigor: reforma as dioceses, impõe a regra beneditina aos mosteiros, exige que as catedrais mantenham escolas, busca intelectuais e teólogos para reformar e estimular as artes, a liturgia, publica um novo Missal, Lecionário, Santoral, a Bíblia de Nostradamus, etc.

A corte de Aquisgrana, para onde o novo imperador deslocara sua residência, foi transformada num centro irradiador de fé e cultura, com a presença ativa de Alcuíno e de Teodulfo.

Para inspecionar o Reino, envia os “missi” (enviados), escolhidos entre bispos e abades, com a faculdade de nomear, depor, investigar, denunciar.

Carlos Magno julga-se um reformador religioso como o rei Josias. As leis têm como fundamento os Dez Mandamentos. Seu grande projeto: criar a Cidade de Deus com a paz cristã e onde a justiça e a ordem estão abertas a Deus.

O grande imperador falece em 814, aos 72 anos. Tinha realizado uma grande obra. Mas, tudo estava centralizado em sua autoridade, prestígio e coerção. Sua paz era imposta. Por isso mesmo, anunciavam-se grandes crises religiosas, políticas e militares.

O filho Luiz (814-828), chamado de Piedoso, por ter interesses mais religiosos do que políticos, assume o império. Seus interesses são a teologia e a reforma da Igreja.

O Concílio em Aquisgrana (815) foi convocado por ele e elaborou uma reforma completa para a Igreja: reforçou a obrigatoriedade do uso exclusivo da regra beneditina com clausura rigorosa, obrigou o clero secular a viver vida comum com refeitório e dormitório.

Em 816, dividiu o povo cristão em clérigos, monges e leigos, todos governados pelo Imperador. Assegurou para si a aceitação ou rejeição das eleições nos bispados e abadias. Os bispos deveriam aceitar os serviços burocráticos do Império, em prejuízo de sua missão religiosa. Era uma Igreja governada por leigos.

Apesar de toda essa boa vontade, o Império estava sendo ameaçado nas fronteiras e, na vida interna, pela corrupção, caça ao favoritismo, negligência do clero e banditismo. Príncipes e nobres querem construir sua riqueza dominando o patrimônio eclesiástico e até comprando cargos religiosos.

A crise do Império atinge diretamente a Igreja, já que um apoiava o outro.

Sendo assim, o enfraquecimento do Império traz consigo o enfraquecimento da Igreja, deixando o papa à mercê de senhores ambiciosos e das desavenças das famílias da nobreza romana.

Os novos papas não estavam à altura de sua missão, surgindo até a lenda, desmistificada em 1649, da Papisa Joana.

O papa Nicolau I (858-867), diligente e forte, procurou garantir a liberdade e a independência da Igreja, excluindo a intervenção política no campo eclesial.

Enfrentou lutas contra bispos ambiciosos e com o patriarca de Constantinopla, tendo clara sua noção de poder de governo na Igreja.

Com sua morte, a Igreja romana mergulhou numa crise de vastas proporções. A sede romana foi dominada por famílias nobres e por mulheres poderosas que faziam e desfaziam papas.

A morte de João VIII (882), envenenado pelos parentes, fez inaugurar um período denominado de “Século Obscuro” ou “de Ferro”. Num período de 67 anos temos 44 papas. São colocados no Trono de Pedro pessoas sem responsabilidade moral. Sérgio III fez estrangular no cárcere seus dois predecessores.

João XII é eleito aos 17 anos, interessando-se por caçadas e noitadas. Mas, foi esse homem imoral que marcou a reviravolta: em 960 dirigiu-se ao imperador germânico Oto o Grande (930-973), pedindo ajuda para os territórios papais. O imperador atendeu ao pedido de socorro, desceu a Roma e colocou em ordem os Estados Pontifícios.

Com a morte de Oto, recomeçam as desordens e a partir de 973, por 40 anos, a família Crescêncio domina Roma, fazendo e desfazendo papas. Após curto período de paz, nova família domina a capital, a dos Tusculanos.
Um deles fez papas três membros de sua família, dois irmãos e um filho, todos leigos.

A ordem religiosa vai ser reconstituída pela dura intervenção de imperadores germânicos e coroada com a Reforma Gregoriana.

A energia reformadora vem, como sempre aconteceu na Igreja, dos mosteiros. Neste caso, do mosteiro de Cluny, que vai renovar o conceito de liberdade na Igreja.

A raiz da crise: os papas tinham perdido a dimensão universal de sua missão e contentaram-se com o pequeno jogo do poder romano.

Pe. José Artulino Besen
Prof. de História no ITESC

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