Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História do Brasil

Movimentos Messiânicos

Messianismo: movimento individual ou coletivo que acredita no surgimento de um enviado
de Deus que trará aos homens justiça, paz, felicidade..., reorganizando a sociedade.

Por ocasião de crises econômicas, políticas, sociais, morais, é normal que surjam homens e mulheres anunciando a chegada de novos tempos e do castigo de Deus para os pecadores. O Brasil não foge à regra e assistiu, no decorrer de sua história, ao surgimento desses líderes. Citaremos os mais conhecidos e que mais marcaram nossa história.

Os Muckers

A imigração alemã no Rio Grande do Sul teve início em 1824. Os colonos receberam propriedades e, no vale do rio dos Sinos, fundaram São Leopoldo. Diante das dificuldades, havia grande união das famílias, vida religiosa e trabalho comunitário. Mas, com o progresso, o contato com as cidades vizinhas, a competição e a concentração da propriedade, surgiram brigas entre famílias, por questão de herança, de dinheiro...

Desde 1867, muitos colonos acorreram à casa do curandeiro João Jorge Maurer, cuja mulher, Jacobina, lia e explicava a Bíblia. Lembrando-se da união e solidariedade dos primeiros tempos da imigração, João Jorge Maurer e esposa iniciam uma pregação falando da proximidade do fim do mundo.

Seus seguidores renegavam o dinheiro e dividiam as propriedades para cultivá-las comunitariamente. Foram chamados de "muckers" (beatos).

A população, devido a seu radicalismo, se voltou contra eles. Em 1873, João e Jacobina foram presos e, já que os muckers passaram a atacar populações e propriedades, entre 28 de junho e 2 de agosto de 1874, as tropas tomaram o reduto dos fiéis, que foram degolados, inclusive Jacobina.

Antônio Conselheiro e Canudos

O período 1877-1915 foi de grandes secas no nordeste. Mais de 500 mil pessoas migraram para o sul e a Amazônia. Só no Ceará houve mais de 100 mil mortos pela fome. Para enfrentar o problema, Dom Pedro II sugeriu a importação de camelos para o transporte de água. Até hoje continuam remendões desse tipo para se fugir da solução para os problemas da seca.

O cearense, Antônio Vicente Mendes Maciel peregrinou 17 anos pelos sertões e caatingas do Nordeste, pregando, reconstruindo igrejas, semeando esperança, pedindo penitência e oração.

Em 1893 fixou-se às margens baianas do rio Vaza Barris, num arraial chamado Belo Monte, depois Canudos e, hoje, Monte Santo. Ali ergueu uma igreja e logo 5 mil casas onde moraram seus 30 mil fiéis que, nesta comunidade, encontravam uma alternativa de vida às formas tradicionais de dominação que sofriam.

Nada era privado; tudo pertencia a todos: plantações, colheitas e rebanhos. Canudos se transformara num Brasil diferente: um Brasil comunitário dentro de um Brasil coronelista.

Todos eram acolhidos, com exceção de ladrões, bêbados e prostitutas. Havia reuniões para orações e aconselhamento.

A administração central era feita por doze chefes, ajudados por 800 fiéis que formavam a Santa Companhia. Um sacerdote celebrava regularmente os sacramentos.

Antônio Conselheiro, por ter separado a Igreja do Estado e colocado chefes eleitos em lugar do rei, se tornou inimigo da República que passou a ser vista como causa de todos os males. Apenas os monarquistas podiam morar em Canudos.

Mas os republicanos da Bahia e do Rio se sentiram ameaçados e passaram a exigir medidas concretas. O arcebispo da Bahia enviou dois missionários que pregaram e celebraram à vontade, mas não alteraram as convicções dos sertanejos. O relatório dos missionários provocou a reação militar, pois afirmavam que em Canudos se conspirava contra a Igreja e a República.

A primeira expedição contra Canudos (1896) foi derrotada por mais de mil jagunços. O mesmo aconteceu com a segunda e a terceira expedição, comandada por Moreira César, em março de 1897, quando morreu inclusive o comandante. Só em outubro de 1997 Canudos é destruída por uma expedição militar de 5 mil soldados.

Uma guerra sem motivo, uma guerra sem prisioneiros, pois eram logo degolados. Canudos era somente isso: uma comunidade de pobres vivendo o sonho da fraternidade, do pão e da água na mesa.

João Maria e o Contestado Catarinense

Em 1907, teve início a construção da estrada-de-ferro São Paulo-Rio Grande. Atravessava Santa Catarina numa área oprimida por coronéis rurais e centro de uma disputa de limites entre o PR e SC. Por isso o conflito recebeu o nome de "Contestado".

Para complicar a situação, o governo cedeu à empresa construtora da ferrovia 15 km de terra nos dois lados dos trilhos, desconsiderando os moradores e declarando nulos os títulos de posse. Os que vieram de fora para trabalhar na construção alteraram o perfil humano, favorecendo o banditismo e a corrupção de costumes.

Freqüente era a passagem de monges e beatos pelo sertão catarinense: percorriam as estradas que levavam de São Paulo ao Rio Grande, passando por Lages. Eram conselheiros, plantavam cruzes, benziam, davam receitas, organizavam novenas. O povo, mal assistido religiosamente, os recebia como santos e sacerdotes.

João Maria de Jesus, é um deles. Surgido depois de 1890, será o mais famoso, pois esteve envolvido na guerra do Contestado. Ele organizou uma comunidade religiosa que reagiu contra a situação de injustiça vigente no meio-oeste catarinense.

O primeiro ato praticado pelos revoltosos era a queima dos cartórios, em protesto contra as escrituras que davam a outros as terras deles roubadas. Simbolizava também a negação da necessidade de qualquer documento na nova comunidade.

João Maria estruturou uma vida comunitária com locais de culto, procissões... Tudo pertencia a todos e nada podia ser vendido, apenas trocado. Pregava-se o milenarismo: o mundo não duraria mais 1000 anos e o paraíso estava próximo. Ninguém tinha medo de morrer, pois ressuscitaria após o combate final. Para o governo, João Maria organizou uma escolta de 24 caboclos, os Doze Pares de França.

Mulheres desempenhavam um papel muito importante, dando-se grande valor à virgindade. Os redutos sertanejos compreendiam mais de 20 mil pessoas, das quais 8 mil preparadas militar e religiosamente para o combate.

Diante da situação, os coronéis se desentendem e explode uma guerra violenta que durou de 1912 a 1916, envolvendo 6 mil soldados, mil vaqueanos e deixando o saldo trágico de 3 mil mortos. Até avião foi utilizado.

Os caboclos não estavam preocupados com os limites do PR e SC, devido a uma região contestada, mas queriam viver com justiça. No bilhete de um caboclo estava escrito: "Nós tratava de nossas devoções e nem matava e nem roubava, mas veio o governo da República e tocou os filho brasilêro dos terrenos que pertencia à Nação e vendeu tudo para os estrangeiro. Nóis agora estamos disposto a fazer prevalecer nossos dereitos..."

O Contestado foi uma das mais cruéis guerras acontecidas no Brasil, envolvendo um caldeirão de motivações: religião, política, grilagem, desemprego, banditismo, miséria, enfim, como em Canudos, o povo pobre que queria viver. Em cinco anos de guerra, 9 mil casas foram queimadas e 20 mil pessoas mortas.

A Guerra do Contestado foi a repetição da Guerra dos Canudos: uma guerra sem razão. Por que atacar aqueles pobres camponeses? As duas guerras se explicam pela existência de dois Brasis, distintos e incomunicáveis: o Brasil das elites urbanas e o dos miseráveis esquecidos. O século 20 terminou e os dois Brasis continuam a não se olhar e entender. João Maria continua vivo na alma dos pobres que o invocam e dele recebem muitas graças. São sagrados os lugares por onde passou.

Pe José Artulino Besen

Para Refletir

1.º Qual o objetivo dos movimentos messiânicos surgidos nesta época no Brasil?

2.º O que motivou a eclosão da guerra dos Canudos e do Contestado?

3.º Existem no Brasil de hoje conflitos deste tipo? Quais? Por quê?

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