Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Educação

Receita de Bolo ou prato feito

O jovem de hoje deve concentrar-se numa das competências mais importantes para o mundo moderno: aprender a pensar e a tomar decisões (Stephen Kanitz)

Prato feito?

Há alguns anos atrás, em fevereiro de 1994, quando voltava de uma viagem de Chapada dos Guimarães (MT), parei para almoçar num restaurante perto de Curitiba. Verificando o cardápio, notei que havia uma refeição que se chamava prato feito. Aquilo despertou minha curiosidade e perguntei ao garçom o que era este tal de prato feito. A resposta foi simples e direta: - No "prato feito" nós mesmos escolhemos a quantidade e a variedade da comida. Nós escolhemos o quê e quanto você vai comer!

Fiquei satisfeito com a resposta, mas inconformado com esse negócio de alguém escolher por mim. No entanto, isso suscitou uma série de questionamentos que dizem respeito à mim mesmo: O que é, na minha vida, resultado de opção pessoal e o que é fruto da escolha que outros fizeram por mim? O que é fruto de pesquisa, esforço, reflexão... e o que é simplesmente informação que os outros passaram para mim?

Modelo Superado

Bom, partindo deste acontecimento, podemos fazer uma comparação com o processo formativo de estudantes e professores. Os estudantes, de um lado, preocupados em aprender conceitos e os professores, por outro lado, preocupados em transmitir conceitos prontos. Desta maneira, repete-se a história do prato feito: uns oferecendo determinados conteúdos ou receitas e outros esperando exatamente isso.

Este é um modelo que precisa ser superado. Afinal, educar não é somente formar conceitos, mas também raciocinar e solucionar problemas. Para tal, é necessário se defrontar continuamente com situações novas, complexas, para as quais não há esquemas de resposta já montados ou estruturados através de aprendizagem prévia. Receita de bolo é para ser usada na cozinha, não na educação!

Raciocínio

A manifestação máxima do pensamento é o raciocínio. É através dele que se chega a novas verdades a partir de outras anteriormente conhecidas. A forma mais qualificada de raciocínio é o pensamento criativo. Pouco adianta copiar as idéias do passado para simplesmente serem aplicadas hoje. Elas são uma importante herança deixada para que as gerações atuais as tomem como ponto de partida para pesquisa e geração de novas idéias e valores.

É importante ressaltar que continuam valendo, e muito, todos os pensadores do passado, desde que não determinem pura e simplesmente as ações de estudantes e professores de hoje. É necessário progredir do ponto onde eles pararam. Afinal, estamos entrando num novo milênio, momento em que as relações mudarão ainda mais depressa e as inter-relações jamais serão as mesmas.

Muitas decisões na vida são tomadas sobre problemas que ninguém teve de enfrentar antes, e sem literatura preestabelecida sobre o assunto. Seria muito mais fácil a vida de estudante ou mesmo a vida profissional se para resolver os problemas cotidianos bastasse aplicar uma teoria de fulano, beltrano ou cicrano. Seria também muito cômodo viver uma vida definida por regras preestabelecidas. Assim como a história do prato feito ou ainda da receita do bolo. Isso é coisa do passado!

Pensar não é fácil

É evidente que pensar dá trabalho. Conforme Wilson de Almeida, se fosse fácil, a educação seria bem diferente, com certeza. Quem se disporia a queimar as pestanas se tivesse a possibilidade de receber quase tudo bem mastigado, de mão beijada? Com toda certeza, na outra ponta, há sempre um grupo de plantão tentando pensar e decidir pelos outros e, se possível, tirar boas vantagens disso. Quem alimenta o cérebro na base do prato feito vive uma vida vazia, sem direção certa, sem significado, sem opiniões próprias: folhas mortas carregadas de um lado para o outro pelo vento.

No entanto, ensinar a pensar não é tarefa fácil. Infelizmente existe ainda uma ênfase muito grande na simples doutrinação dos alunos, condicionando-os, através de receitas de bolo, a darem respostas padronizadas para as necessidades da realidade e fechando a porta da reflexão e da busca de suas próprias soluções.

Provocar a curiosidade, estimular o raciocínio? Nem pensar! Isso é muito trabalhoso e pode ser até perigoso para uma sociedade preocupada com a ordem, a segurança!

Alguma Esperança

O mais engraçado é que muitos "teóricos da velocidade das mudanças" afirmam que as organizações devem ser flexíveis e humanas. No entanto, ao mesmo tempo, elaboram receitas de bolos ou fazem o prato feito. Na verdade, essas pessoas, querendo ser extremamente práticas, tornam-se excessivamente teóricas. Afinal, como fazer uma receita de bolo ou um prato feito para um mundo essencialmente dinâmico?

É claro que não se trata de colocar todos no mesmo barco. Apesar de todas as tentativas de se transformar as pessoas em coisas e números, como os efeitos de uma verdadeira clonagem, em todos os lugares se encontram pessoas que ainda pensam por si mesmos, e, junto com elas, encontramos alguma esperança.

O importante é deixar bem claro que a transmissão da receita de bolo ou a composição do prato feito não pode, em hipótese nenhuma, ser apresentada como a única forma de educação possível e válida. Em outras palavras: a pluralidade do ensino e das opiniões, a ênfase na pesquisa e a reflexão crítica não podem ceder o passo para a busca desenfreada por resultados imediatos e simplórios.

A pesquisa deve ser uma dimensão diária na vida de estudantes e professores. Ela é a preocupação e a tentativa consciente de resolução de problemas/questões que a vida apresenta. Se isto não acontecer, o "achismo" ou as opiniões pessoais prevalecerão sobre a tentativa de construção de conhecimentos novos, sérios, profundos e criativos.

Desprezar o potencial de escolha, conseqüência da formação de parâmetros para que cada um tenha critérios para optar, seria negar uma das características mais preciosas que o ser humano possui.

Mauri Luiz Heerdt

Como não pensei nisso antes

Meu pai, um engenhoso e alegre aposentado, já na casa dos 80, se diverte inventando quebra-cabeças com barbantes, argolinas e ganchos.

Depois, ele desafia os mais jovens a encontrarem soluções. São truques bem simples, mas que, para descobri-los, é indispensável exercitar o raciocínio lógico.
Freqüentemente observo que a maioria deles desiste após três ou quatro tentativas. Todos querem soluções prontas.

Seu José tenta incentivar: "Pense um pouco mais, use a imaginação!" Quando, finalmente, ele mostra o caminho das respostas, as pessoas geralmente se surpreendem: "Mas era assim tão fácil? Por que não pensei nisso antes?"

Wilson de Almeida

Para Refletir

1.º Como é o seu tipo de educação: Você raciocina ou recebe o prato feito?

2.º Você concorda com o tipo de educação apresentado nesta reflexão?

3.º Qual a atitude que estudantes, professores e direção devem tomar para termos uma educação que também valorize o raciocínio, a reflexão, o pensar?

4.º Isso está acontecendo em sua escola ou ambiente de trabalho?

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