ESPECIAL MISSÃO E MARTÍRIO
Consciência Negra
É o despertar para a caminhada de busca e de resgate dos valores
humanos, culturais, econômicos e religiosos legados da Afro-descendência
de grande parte do povo brasileiro
Meus avós nasceram lá na África.
De lá eles foram arrancados e trazidos para cá.
Trago no sangue a genética dessa raça, África.
Consciência, segundo um dos significados extraído do Dicionário
Houaiss, é o “sentimento
ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar
ou compreender aspectos
ou a totalidade do seu mundo
interior”.
Consciência Negra é o despertar
para a caminhada de busca e de resgate dos valores humanos, culturais,
econômicos e religiosos legados da Afro-descendência de grande
parte do povo brasileiro. É reconhecer que a raça negra
tem memória, história e identidade e que tudo precisa ser
resgatado, reinventado,
construído, tendo como exemplo os remanescentes de Quilombos que
resistiram ao tempo e ao espaço.
Quilombo ontem e hoje: resistência e liberdade
Quilombo era o lugar onde os negros se refugiavam em busca de liberdade
e que permitiu a formação de verdadeiras comunidades com
organização
própria. O maior Quilombo brasileiro foi o de Palmares. Ele existiu
de 1595 a 1695, como verdadeira república livre, na Serra da Barriga,
em Alagoas. O seu grande líder foi Zumbi, morto no dia 20 de novembro
de 1695, deixando seu exemplo de perseverança na luta pela liberdade.
Vários movimentos fazem parte
dessa luta que não começou hoje. Poderíamos citar
como exemplo a Imprensa
Negra, a Frente Negra Brasileira,
o Teatro Experimental Negro, o Movimento
Negro Unificado, os Agentes de Pastoral do Negro, o Candomblé,
a Capoeira, as Congadas, a música e a dança.
Esses movimentos têm contribuído enormemente
para o resgatede elementos afro-descendentes. Todos
resistiram ao tempo e à pressão da sociedade pretensamente
branca.
Acreditamos que algumas conquistas
já foram alcançadas através das lutas:
• a criação da Secretaria Especial de Políticas
de Promoção da Igualdade Racial;
• a Lei 10639, que preceitua: “nos estabelecimentos de ensino
fundamental
e médio, oficiais e particulares,
torna-se obrigatório o ensi1
no sobre História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.”.
O programa de cotas para os Afro-descendentes, que tem causado
tanta discussão na sociedade, tem como objetivo dar ao negro brasileiro,
advindo na sua maioria da escola pública do ensino fundamental
e médio, acesso a escola pública
de terceiro grau.
A política de cotas é o reconhecimento
do trabalho do negro na construção desse país ao
longo dos 500 anos. Não podemos deixar de citar também as
mais diversas iniciativas
comunitárias como a criação de Cursos de Alfabetização,
de Profissionalização
e de Pré-Vestibular.
Sabemos que a caminhada não é fácil, mas temos que
seguir em busca
da terra prometida onde todos e todas deverão ter os mesmos deveres
e direitos.
Com a alegria e a esperança expressa no sentido pleno do Axé,
temos que ter forças para caminhar
construindo PAZ em busca da igualdade.
Tarcisio do Nascimento Galdino
Pós-graduado em EducaçãoReligiosa
tngald@terra.com.br
"Cotas Raciais: Por que sim?"
Em Junho do ano passado, tive a honra de integrar a mesa de um debate
sobre as cotas raciais. “Cotas raciais:
Por que sim?”
Entretanto, o que mais me chamou
a atenção neste evento não foram
as colocações promovidas pelos demais integrantes da mesa,
e sim a reação adversa ao tema que alguns alunos presentes
no debate tiveram. Perguntas do tipo: “Por que eu tenho
que ceder a minha vaga para um aluno negro?”, ou ainda, “Por
que o Brasil dos brancos precisa perder para o Brasil dos negros ganhar?”
foram
as mais contundentes e incisivas ouvidas por nós neste dia. E é
exatamente
sobre esse sentimento que eu gostaria de refletir.
A questão racial no nosso país está muito mais ligada
ao problema das oportunidades e da imensa crise do coletivismo em que
a nossa sociedade
está mergulhada do que com os dados estatísticos do IBGE
que indicam
a ausência dos negros e pobres na Universidade: ao mesmo tempo em
que temos 46% de negros na população
brasileira, existem apenas cerca de 8% nas universidades.
A sensação que temos é que as pessoas estão
muito mais preocupadas com os seus interesses particulares do que com
o coletivo, com o todo e, porque não dizer, com o bem-comum. A
idéia da partilha e da eqüidade de oportunidades são
esquecidas
quando temas que visam a igualdade e a diminuição de diferenças
sociais são abordados.
Um bom exemplo disso é a forma como refletimos sobre os problemas
da violência em nosso País.
Uma parte considerável
da nossa sociedade
tem a falsa sensação
que a violência será resolvida apenas com projetos de segurança
pública e, em alguns casos, até mesmo privada. Infelizmente,
para essas pessoas, eu tenho uma triste notícia: Não será
morando em condomínios fechados e blindando os carros que uma pequena
camada da nossa sociedade se livrará da violência.
Ela está crescendo cada vez mais como um câncer. Um tumor
que se alimenta da miséria, da falta de oportunidades,
do preconceito e principalmente
do egoísmo. Chega a ser curioso ouvir alguns políticos falarem
sobre
distribuição de renda. Dá vontade de perguntar: “Qual
renda
vocês querem distribuir?”.
A questão das cotas está ligada a esse sentimento. Ninguém
quer tirar nada de ninguém. O que se deseja com as cotas é
tentar, de forma
bastante objetiva, criar oportunidades iguais para todos, incluindo
neste grupo os negros e pobres. A nossa sociedade
somente crescerá, tornando-se igualitária e justa, quando
a busca pelo bem comum for discernida e abraçada por todos.
Concluo esse artigo com um pensamento contido no filme “O poder
de um Jovem”, que conta a história do Apartheid na África
do Sul: “A inclusão, e não a exclusão social,
é a chave da sobrevivência pacífica e harmoniosa de
uma sociedade”.
Somente assim, levando a sério esse pensamento através de
ações práticas de curto, médio e longo prazo,
incluindo aí, políticas públicas que resolvam de
frente os problemas de desigualdade como o acesso dos negros e pobres
na universidade, é que construiremos uma sociedade mais justa,
igualitária
e consequentemente Cristã.
Um forte abraço a todos
e a Paz de Cristo!
PARA REFLETIR
1. Qual é a sua opinião a respeito das Cotas Raciais?
2. De que forma posso ajudar a combater o preconceito racial? |